
“Solto a voz nas estradas, já não quero parar. Meu caminho é de pedras, como posso sonhar?”
Até quem conhece muito pouco de Milton Nascimento arriscaria dizer que o verso acima faz parte de uma canção sua. Afinal, o refrão de Travessia carrega vários elementos da obra do cantor/compositor carioca criado em Três Pontas (MG). A música que lhe rendeu o segundo lugar no festival internacional da canção de 1967 foi seu cartão de visitas para o mundo e para mim.
Na adolescência, já conhecia Milton de grandes sucessos como Coração de estudante, Canção da América e Maria, Maria. Porém, até ali, ele apenas era, pra este incauto, um cantor da MPB. Quando escutei Travessia, primeira música de uma coletânea emprestada por uma prima, senti que estava diante de algo muito diferente. E impressionante.
Nas faixas seguintes, o mesmo estilo, a mesma – magnífica – voz, a mesma emoção. Lembro que a coletânea trazia as canções de que já falei, mas também Cravo e Canela, Paula e Bebeto, Para Lennon & McCartney, Nos bailes da vida… Olhando vinte anos depois, é curioso entender como aquilo me tocou. Na época, preferia o rock, o pop, a música mais fácil para um jovem com ansiosos hormônios em ebulição. Mas Milton Nascimento era bem diferente daquilo tudo que eu gostava. E, mesmo assim, gostei.
Gostei mais ainda quando, anos depois, uma linda menina – com quem vivo até hoje – me apresentou o disco duplo Clube da Esquina. Desde então, ouço o CD pelo menos uma vez a cada quinze dias (eu disse “pelo menos”). Se Travessia é uma síntese do trabalho de Bituca, Clube da Esquina é sua expansão. Elaborado em parceria com uma geração de músicos e compositores alinhados com o estilo de Milton, o disco somou todas as qualidades de quem o fez – gente como Lô Borges, Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso – e não podia ter um resultado diferente de ”sensacional”. Também, pudera: Nada será como antes, Tudo que você podia ser, Cais, Um girassol da cor do seu cabelo, Paisagem da janela, O trem azul… Se apenas “gostava” de Milton Nascimento, a partir da primeira
audição de Clube da Esquina tornei-me seu fã.
Com uma sensibilidade incomum impregnada em cada verso e em cada nota de suas canções, o cancioneiro de Milton supera compreensão de idioma e ressoa em todo o
planeta. Não surpreende nem um pouco seu reconhecimento internacional.
Compositor de letra e de música, mas sempre generoso em formar parcerias, Milton apresenta um estilo e uma qualidade iguais em qualquer uma de suas produções.
Cantor inigualável, interpreta com afinco o que já é seu e recria canções escritas por outros compositores, tornando-as suas. Pense em O que será (as duas versões), Cálice, Chega de saudade…
O repertório de Milton raramente fala de substantivos concretos ou conta histórias. Em compensação, traz, antes de qualquer coisa, emoção. Esse material, tão
rico em sentimentos, valor poético, metáforas, é diverso e, ao mesmo tempo, único. Suas canções constroem uma grande obra sobre a exaltação da liberdade, o prazer da arte e a força do amor (menos o amor romântico e mais o amor à vida, às pessoas, a tudo que é belo, e a todos os sentimentos dele derivados).
Milton Nascimento faz, hoje, 70 anos. De respeito a seu público. De tradução de sua alma em primorosas canções. De despertar todo tipo de emoção no Brasil e no mundo.
Parabéns, Bituca! E obrigado.