Quem tem medo do lobo mau?

Se na minha adolescência acompanhei Lobão através de seus discos e shows, tudo que eu soube do cantor na virada do século pra cá foi pelas entrevistas e declarações bombásticas e verborrágicas, muito mais repletas de provocações tolas, inúteis e até pesadas a colegas de sua geração, como Herbert Vianna, do que dotadas de alguma reflexão importante. Eu mesmo já fui vítima de sua crítica metralhadora, quando lhe enviei um comentário sobre um show que ele fez na festa Loud!, no Cine Íris, em setembro de 2001.
Dentro da parte mais relevante de seu discurso, destacava-se a luta que o autor de Vida Bandida encampou contra as gravadoras e o jabá, aquele agradinho que as majors dão às rádios para que seus artistas toquem sem parar. Mais do que falar, o autor tomou a frente de vários projetos, como a luta pela numeração dos discos produzidos no Brasil e o lançamento de uma revista independente, que também fazia as vezes de selo e lançava bandas novas.
Então, como encarar o lançamento de um Acústico MTV, produto da SonyBMG e pertencente a uma linha que investe pesado em marketing? Lobão, claro, tem suas justificativas. Em entrevista à Folha de S.Paulo ele afirma:
Estou fechando um ciclo. Canções da Noite Escura” [2005] foi um dos meus melhores discos. Quando saiu, foi um fracasso. Vendeu umas 15 mil. Foi pífio. Custou quatro anos da minha vida pra fazer esse disco. É frustrante. Tive então a idéia de fazer disco ao vivo. Choveram propostas. Praticamente todas as gravadoras me procuraram. Aos 46 do segundo tempo, a SonyBMG falou comigo. Aí eu vejo pessoas diferentes por lá. Não sei quantos processos eu tenho contra eles. Isso aí é outra coisa. O pessoal de agora não tem nada a ver com aquilo. Assim como eu converso com um executivo da Petrobras pra captar recursos pra minha revista, eu sou um empresário. Pô, eu vou ficar com raiva deles [das gravadoras]?
E as críticas ao formato do Acústico MTV?
Repare bem nos artistas que estavam gravando o ‘Acústico’ na época em que eu falava isso [97]. Hoje, o Marcelo D2 fez um puta ‘Acústico’. O Zeca Pagodinho também. Pô, o que eu posso fazer se o nível melhorou? O que eu posso fazer se eu tive a oportunidade de fazer um disco bom? Qual a contradição?
E sobre o combatido jabá?
Eu não pago jabá. Por que eu assinado [com uma gravadora], toco [nas rádios], e não assinado, não toco? Eu não tenho nada a ver com isso. Eu tô numa gravadora e pronto. É uma atitude muito moral dizer que eu tô pagando jabá. O buraco é muito mais embaixo. Tenho 50 anos e posso dizer que não tenho tempo de ficar esperando que alguém vá prender alguém. Vou ficar de herói aqui? Se eu for destruído enquanto criador, e minha criatura sobreviver, tô no lucro, é tudo que quero. Eu acredito que sou merecedor de estar tocando na rádio.
Os argumentos de Lobão não surpreendem. São típicos de quem resolveu mudar de idéia porque “o contexto mudou” (como ele mesmo diz), quer dizer, porque é mais vantajoso mudar de lado. O público está acostumado a ouvir desculpas parecidas na política. Faz parte do jogo. Assim como faz parte do jogo criticar uma nova postura, contrária àquela apresentada por tantos anos e tão enfaticamente. Revela-se, agora, que o discurso de antes era feito mais com o intuito de promoção pessoal do que realmente provocar um debate e lutar por mudanças.
Aguardemos, pelo menos daqui pra frente, uma atitude mais coerente de Lobão a respeito do que ele combate, do que ele defende e do que ele produz. Senão, ficaremos muito confusos e incertos sobre suas idéias e conceitos. Enquanto isso, sigamos seu próprio conselho:
Se tá botando jabá ou não, ouça a música.
Ouviremos sim. Porque música é música e o resto é resto.
* Os trechos da entrevista foram retirados do artigo Cordeirão?, publicado por Henry Burnett no Overmundo.

