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Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
  

Aumentando o pique

27/06/2007 - 12:34 - por Raphael Perret

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Muitos dos meus passeios ciclísticos dominicais no Aterro do Flamengo foram surpreendidos por provas de corrida. Eu via aquelas pessoas animadas, cansadas porém felizes, com boné, óculos escuros, camiseta, números pregados no abdômen e muita vontade de terminar seus percursos. Em um domingo de 2005, vi os corredores cumprindo os 21 km da Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro e, numa dessas decisões que vêm do âmago e nunca sabemos ao certo porque tomamos, botei na cabeça que estaria correndo aquela modalidade no ano seguinte.

Nunca gostei muito de correr riscos. Era óbvio que eu, metódico, ia me preparar com o máximo de planejamento. Alguns amigos mais experientes me aconselharam a seguir planilhas montadas por profissionais. Recorri a revistas especializadas para obter uma referência de treinamento. Consultei uma nutricionista pra fazer uma dieta adequada aos meus planos. Fácil.

Descobria o que me deixava mais confortável com o passar do tempo. Comprei um MP3 player pra não me sentir sozinho na corrida, um esporte naturalmente solitário. O boné tornou-se inseparável nas manhãs ensolaradas. As orientações das revistas davam a impressão de que era necessário correr de mochila, tamanha a quantidade de itens “obrigatórios”, como gel de carboidrato e água. Uma pochete especial, presente da minha esposa, solucionou o problema.

Comecei a me sentir preparado para executar provas menores. Primeiro 6 km, depois 10 km. Resultados bons, razoáveis para quem iniciara os treinos um mês antes. Estava tranqüilo. Fiz a inscrição para a Meia de 2006, em agosto.

Os treinos que segui não exigiam que eu fizesse os 21 km. Bastava um pouco menos. Não era nenhum esforço hercúleo. Sentia-me pronto. Completar o percurso já seria o máximo.

Era um circuito lindo, num dia maravilhoso. De São Conrado ao Flamengo. Consegui terminar a prova, ufa. Mas foi, digamos, traumático, doloroso, sofrido. O horário era inóspito: 9:40 da manhã, o que garantia um sol perigoso nos quilômetros finais. Cruzei a linha de chegada cambaleante. Não conseguia almoçar de tão cansado e enjoado. O tempo ficou muito abaixo do previsto (2h09min). E, pra piorar, ganhei uma canelite, que só foi curada depois de consultar dois ortopedistas e após fazer umas vinte sessões de fisioterapia. Molho total.

Revendo os conceitos

O sucesso mal-sucedido da Meia não me intimidou. Com o fim das dores na perna direita, voltei aos treinos, catalisados pela musculação que passei a fazer, com a finalidade de reforçar a musculatura – dica do segundo ortopedista. Freqüentar a academia nunca foi minha atividade preferida, mas valeu muito a pena. No último mês de 2006, corri uma prova de 10 km, e fiz meu melhor tempo. Graças, também, à expulsão do escorpião que morava em meu bolso. Depois da Meia, comprei um tênis indicado para corridas. A diferença de performance era evidente. Como fazia diferença um tênis de verdade!

Tirei férias em janeiro e, mais uma vez, deixei um pouco de lado os treinos. Só voltei a me exercitar depois do carnaval. E, seguindo mais uma dica da Adriana, resolvi experimentar o pilares em troca da musculação. Maravilha! Alongamento e reforço muscular ao mesmo tempo. Tchau, academia.

Na metade de 2007 ocorreria a primeira meia maratona do ano, a da Caixa. Não tinha dúvidas, precisava refazer o percurso, mas sem traumas no final. Intensifiquei os treinos. Na primeira prova do ano, um revezamento em que eu corri 4 km, em março, não fiz feio. Porém, ao longo dos dias, achava que podia aumentar meus limites, mesmo nos exercícios. Para me estimular, determinei que precisava fechar a meia maratona em menos de duas horas. Sem cambalear.

Obedeci à planilha fielmente. Mesmo nos momentos mais complicados, como no fim de maio, quando tive que viajar a uma São Paulo sob temperaturas polares e treinei na esteira do hotel às 7 da manhã. Entretanto, por causa de alguns lapsos de desleixo meus, me enrolei na organização de véspera e cheguei um pouco tenso à Barra da Tijuca na manhã de 24 de junho, dia de São João, dia de Meia Maratona Caixa do Rio de Janeiro. Havia uma sensação de “esqueci-alguma-coisa”, deixei de cumprir alguns itens da lista de tarefas alimentícias… Bem, vamos deixar o preciosismo de lado e fazer esse alongamento?

Os 21 km da verdade

Sigo as instruções da professora de pilates. Lembro da primeira nutricionista que consultei: “beba muita água, de 15 em 15 minutos antes da prova”. Vou ao banheiro. Um beijo na mamãe. 8 horas em ponto. É dada a largada. Continuo alongando. Enfim, vou em frente. Três meses de treino intenso. Para quê? Para aquela hora.

No MP3 Player, começo com “We are the champions”. Em seguida, a seleção aleatória escolhe “Eye of the tiger”, música-tema de Rocky Balboa. Não podia ser à toa. Ritmo leve, pois vem aí o elevado do Joá. Subida suave, mas é subida. Primeiro quilômetro, meu pace (minutos/km) está no previsto. Entra o túnel, a galera vibra, grita, comemora. O clima dessas provas, realmente, é algo muito saudável e contagiante.

O asfalto mal conservado do Elevado faz diferença e sinto as pernas. Vem o segundo túnel, um breu completo e um medo de tropeçar em falso. Vem a descida, vou com cuidado. Vejo que o pace piorou. Pelas contas, termino a corrida no laço das duas horas. Era preciso melhorar o ritmo. Nenhum problema, pois este é o desejável: começar lento e aumentar o pique depois do primeiro terço.

Só que em São Conrado já estava nos 7 km e ainda tinha uma Avenida Niemeyer pela frente, com uma subida mais visível e mais comprida. Entre terminar a prova com o joelho estourado e concluir o percurso abaixo da meta mas em forma, fiquei com a segunda opção. Encarei o trecho no ritmo leve, sugerido amplamente pelos especialistas nas ladeiras.

Alguns pontos de descida da Niemeyer não são nada suaves e também exigem cautela. Mantenho o ritmo leve. Naquele pace, havia grandes riscos de não alcançar meu objetivo. Foi quando tomei a grande decisão da corrida (e isso prova como os esportes exigem, sim, estratégias):

“agora vou aumentar o pique”

Era uma dificuldade que sempre tive nos treinos. Mas era *a* meia, caramba. Mais de um ano pensando nela. Era tudo ou nada. Forcei. Vambora!

Do Leblon em diante era só nível do mar, terreno plano, sem grandes percalços. Logo, logo, faria uma hora de prova e teria que tomar o gel de carboidratos e suprir a energia gasta. Dali até Copacabana praticamente não pensei, só corri. Pegava todas as águas e Gatorades disponíveis e ia em frente. Quando vi o relógio já perto do Copacabana Palace, nem acreditava: meu tempo estava bem melhor e conseguiria, se mantivesse o ritmo, terminar a prova abaixo das duas horas.

É difícil explicar o que aconteceu, porque o cenário estava totalmente favorável. Apesar do sol, não sentia calor. O próprio gel eu só tomei por desencargo, porque não me sentia cansado. Nem sede eu sentia, mas a recomendação é de beber água mesmo sem sede, pra conservar a hidratação. Não tinha dor (com exceção do atrito que a blusa fazia com meu peito, que acabou sangrando; só fui ver o estrago quando minha mãe perguntou o que era aquela mancha vermelha na camiseta, no final da prova). Sequer do fôlego eu podia reclamar. Tinha a sensação de que poderia correr durante horas, à la Forrest Gump. Veio o túnel Novo e o bolo de corredores, bem mais esparso, já não tinha forças para gritar e vibrar, como no início. Mas eu conseguia cantar os refrões d
as músicas que eu havia escolhido a dedo para a minha trilha sonora. Até que…

Antes do túnel do Pasmado, olhei o relógio e passei a ter certeza: nada poderia me tirar do objetivo. Agradeci a Deus pela oportunidade proporcionada, no exato momento em que meu MP3 toca… “With a little help from my friends”. Bonito. Lindo. Um sinal.

E um susto: na praia de Botafogo não encontrei a sinalização dos 19 km. Por instantes achei que meu pace subiu estranhamente. Tratava-se apenas de um descuido meu. Logo viria a placa dos 20 km, a marca de 1h51m no relógio e a confirmação de que bastava administrar o resultado. Sentia-me vencendo o jogo por 3 a 0 aos 45 minutos do segundo tempo.

A multidão próxima à chegada aumentava em volta das ruas do aterro. O relógio já havia por mim sido esquecido. Nem escutava mais as músicas que saíam do fone de ouvido. Só queria saber da linha final. E não porque eu estivesse doido para acabar a corrida para desabar no gramado. Queria logo chegar ao final para comemorar, celebrar, vibrar a conquista de um objetivo, a derrubada de uma meta, a consolidação de uma superação que, distante nos treinos, eu alcancei na hora certa. Eu só queria saber da linha de chegada por isso. Porque eu era capaz de continuar correndo por mais uns cinco quilômetros. Porque naquele momento, acho que eu era capaz de tudo.

Fim de prova, 1h56min47s. Excelente ficar três minutos abaixo da meta e doze abaixo da minha marca anterior. Vitória, vitória, vitória! Que felicidade! Sangue, suor e superação, literalmente! Meu resultado comprovou duas coisas muito importantes: o treino é, de fato, fundamental e deve ser levado a sério. E acreditar que você consegue ampliar seus limites funciona, MESMO.

A corrida de domingo foi um incentivo monumental para encarar outras provas, outros desafios e outros objetivos. Alguns amigos já falam em maratona. Será? Calma, é “apenas” o dobro do que eu consegui fazer. Por enquanto, fico com a meia mesmo. Setembro tem a traumática Meia Maratona Internacional. A princípio, a meta continua a mesma: terminar antes de 120 minutos.

Mas já estou pensando em rever essa meta. Se eu fui capaz de incrementar o ritmo durante a corrida, por que não nos treinos? Hum…

“vou aumentar o pique”.

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