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Chico Buarque, "Carioca ao vivo" e a emoção de sempre

13/09/2007 - 04:00 - por Raphael Perret

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O DVD “Carioca ao vivo”, de Chico Buarque, é um perfeito retrato em movimento do que foi o show que presenciei no Canecão nos dias 4 e 19 de janeiro de 2007. A diferença é que o produto foi gravado em São Paulo, no ano passado. E, daí, decorrem outras características específicas do registro: um público frio, mesmo nos momentos mais empolgantes do show, e um silêncio respeitoso diante do verso “maconha só se comprava na tabacaria”, recebido com clamorosos aplausos pelos cariocas.

O roteiro da apresentação de Chico Buarque e sua banda é o mesmo dos shows que assisti ao vivo. Ensaios não devem ter faltado para uma reprodução, inclusive de gestos e frases, tão fiel. Engana-se, porém, quem acha que ter visto as três apresentações foi um exercício de repetição. O primeiro show foi burocrático, com um Chico tenso na estréia da turnê na cidade que inspirou o nome de seu último disco. Quinze dias depois, o cantor estava claramente mais relaxado – se é que isso é possível, considerando o olhar hipnotizado e os movimentos econômicos do homem – e as músicas fluíram agradavelmente. Por fim, o registro do DVD, visto oito meses depois da apresentação no Rio, é delicioso.

O tempo que se passou foi necessário para me acostumar às canções do disco “Carioca”, interpretado na íntegra e fora de ordem no show. Não se trata de um disco perfeito: algumas músicas são monocórdias e desnecessárias. Porém, é delicado, valoriza violões e flautas e traz alguns achados, como “Dura na queda” e “Outros sonhos”. Na comparação com o CD anterior, “As cidades”, “Carioca” ganha. No caso das turnês, o repertório do show “As cidades” é melhor, mas a qualidade técnica do CD e DVD mais recentes é muito maior.

Ouve-se, no “Carioca ao vivo”, cada corda, cada sopro e cada tecla com magnífica pureza. A qualidade da banda que acompanha Chico é incontestável e as técnicas de gravação de sua recente turnê foram certamente pré-direcionadas para a gravação de um DVD – o que não aconteceu com “As cidades”, em 1999 – justificando a superioridade técnica.

Melhor pra nós, que podemos nos deleitar com uma “Morena de Angola” swingada mesmo com mais peso na voz de Chico do que nos instrumentos. Ou com a delicada versão jazzística de “Mil perdões”, próxima da original, mas realçada pela presença forte do violão. Ou, ainda, com “João e Maria”, num andamento mais lento aparentemente proposital para valorizar o lindo arranjo interpretado no show.

A ordem das músicas, aliás, parece um daqueles segredos que só Chico Buarque consegue esconder em suas canções, propositalmente ou não. O roteiro foi construído de forma a incluir todas as músicas do “Carioca”, mas sem deixar de amarrá-lo a um fio condutor que passeia por blocos temáticos. Senão, vejamos. O show começa com a felicidade do artista, tema recorrente em todo o concerto (“Voltei a cantar”, “Mambembe”, “Dura na queda”). Em seguida, músicas idílicas (“Renata Maria”, “Outros sonhos”, “Imagina”). Um passeio pelas canções de Chico escritas para o cinema e o teatro, ou que tratam das duas modalidades artísticas (“Mil perdões”, “A história de Lily Braun”, “A bela e a fera”, “Ela é dançarina”, “As atrizes”, “Ela faz cinema”, “Eu te amo”, “Palavra de mulher”). Duas músicas para lembrar que a turnê é “Carioca” (“Subúrbio”, “Morro dois irmãos”). O anúncio da despedida (“Bye bye Brasil”, “Cantando no toró”, “Na carreira”). O bis triunfal (“Sem compromisso”, “Deixe a menina”, “Quem te viu, quem te vê”).

Pode-se dizer que um roteiro tão certinho, criado de forma tão metódica, poderia burocratizar o show. Não é o que acontece. A grandiosidade da obra de Chico transforma qualquer sinal de rigor em plena emoção. Ver o maior letrista vivo da música brasileira interpretar suas canções comove sempre. Seja na primeira, na terceira ou na milésima vez.

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