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Eleições 2008 no Rio: vai entender…

19/10/2008 - 19:27 - por Raphael Perret

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Se Cazuza queria uma ideologia pra viver, os cariocas não estão nem aí pra ela. Antes era mais fácil identificar um cenário para os segundos turnos das eleições. Agora, é cada vez mais difícil: Gabeira está recebendo a maioria dos votos dos eleitores de Jandira Feghali e de Solange Amaral.
Se Cazuza queria uma ideologia pra viver, os cariocas não estão nem aí pra ela. Antes era mais fácil identificar um cenário para os segundos turnos das eleições. Mas o que dizer deste trecho de matéria da Folha (via Noblat)?

De acordo com o Datafolha, entre os eleitores que disseram ter candidato no segundo turno, Gabeira herdou mais votos entre os eleitores de Jandira Feghali (PC do B) e de Solange Amaral (DEM), candidata do prefeito Cesar Maia, que já anunciou apoio ao deputado federal: 59% dos eleitores que haviam votado no primeiro turno em Jandira migraram agora para o candidato do PV e 41% foram para Paes; entre os eleitores de Solange, 55% foram para Gabeira e 45% para Paes.

A vantagem de Gabeira nessa migração o deixou numericamente à frente de Paes, apesar de o candidato do PMDB ser o principal beneficiário do eleitorado de Marcelo Crivella (PRB), terceiro colocado no primeiro turno. Desses 54% optam por Paes e 46% preferem Gabeira.

A sondagem reflete exatamente o que está acontecendo no jogo das alianças entre os partidos no cenário do segundo turno no Rio: os apoios, as declarações e os movimentos podem ser os mais inesperados possíveis.

Não surpreende a migração de votos dos eleitores de Jandira para Gabeira. O curioso é verificar que os simpatizantes do PCdoB estão tendendo a votar, no segundo turno, igual aos eleitores do DEM. Ao menos, neste caso, há uma justificativa: o partido de Cesar Maia já declarou apoio a Gabeira. Considerando que os eleitores de Solange estão satisfeitos com o atual prefeito e sua parcela no eleitorado foi muito pequena – o que supõe maior afinidade e homogeneidade – é natural que eles vão aonde o seu candidato for.

Agora, tente entender a migração de votos de Crivella. Que a maioria de seus eleitores fosse em direção a Paes não é novidade. Mas essa maioria não é esmagadora. Afinal, 46% dos cariocas que votaram no PRB pretendem votar no Gabeira. Como é que pode?

São tendências como essas que mostram como as eleições no Rio costumam ser imprevisíveis. E a costura política dos partidos não foge muito do padrão do “inesperado”.

O DEM na segunda-feira já declarou seu apoio ao PV de Gabeira. Se, por um lado, entende-se o movimento pela repulsa que Cesar Maia tem a seu ex-pupilo Eduardo Paes, por outro é curioso assistir a um jogo em que atuam no mesmo lado do campo, com tanta clareza, um partido conservador e alguém como Fernando Gabeira.

Enquanto isso, o PDT afirma que o apoio a Paes é “natural”. Sorry, ministro Carlos Lupi (ele não era presidente do partido licenciado?), mas natural era Brizola apoiar Lula em 1989 e 2002, natural era Marta apoiar Covas em 1998 e Covas apoiar Marta em 2000, natural é o PSDB apoiar Kassab em 2008. O PDT pode até apoiar Paes, mas achar isso natural é realmente admitir que a diferença entre todos os partidos está apenas na sigla.

O PT também já fechou com Paes. Pelo menos, esta situação causa menos estupor, visto que, não houvesse desajustes antes da campanha, haveria uma aliança PT-PMDB desde o início. PSB já está com o candidato peemedebista e o PCdoB, ao que parece, vai se unir ao grupo. Mesmo contrariando a maré puxada pelos eleitores de Jandira.

É realmente notável este movimento massivo dos partidos de esquerda rumo a Paes. Chico Alencar, do PSOL – que, ao que me consta, não fechou sua decisão – falou que é amigo de Gabeira, mas não pode apoiá-lo pelas alianças que compôs. Será este o mesmo argumento dos outros partidos? Tenho certeza de que não, uma vez que o PMDB está coligado com PTB, de Roberto Jefferson, e o PP, de Jair Bolsonaro e Francisco Dornelles.

A união em torno de Paes só pode ser conseqüência da projeção feita pelos partidos para o contexto de 2010, ano de eleições estaduais e federais, e é importante que a base aliada de Lula esteja coesa numa cidade como o Rio. Faz sentido. Afinal, somente os atores locais da esquerda estão agindo desta forma. O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), o prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira (PDT), e a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (PSB), já declararam apoio a Gabeira. Claro, as conseqüências políticas das eleições no Rio interferem pouco em seus redutos.

Entretanto, convém lembrar que, justificando essa recente tradição do Rio de dificultar a previsão dos resultados, não dá pra nacionalizar uma eleição municipal dois anos antes. Lembrem-se que, em 2002, Lula foi eleito com votação maciça dos cariocas quando o prefeito era Cesar Maia, histórico rival do presidente.

E por falar nisso, Gabeira já avisou que não quer ninguém que o apóie no segundo turno em seu programa eleitoral. O recado é claro para o prefeito, e o motivo é óbvio: vincular-se a Cesar Maia, hoje, pode ser o “beijo da morte”.

Enfim, a corrida pela prefeitura do Rio começa praticamente do zero, pois os dois candidatos estão empatados segundo o Datafolha. Daqui pra frente, é acompanhar as movimentações, as campanhas, o horário eleitoral e decidir. Apesar de tudo ser bem mais confuso.

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