Paes sai melhor que Gabeira no primeiro debate na TV
No âmbito geral, Paes não falou nada de revolucionário, mas falou o que a população quer ouvir. Já Gabeira tem o mérito de, pelo menos, apresentar propostas diferentes, trazidas de experiências de fora do Rio. Mas, no fim das contas, Paes demonstrou ser mais raposa do que Gabeira.
A favor de Eduardo Paes:
1) demonstrou ter conhecimento não só do Rio de Janeiro, mas da estrutura da Prefeitura;
2) reforçou bastante seu compromisso com saúde e educação, sempre batendo na tecla do fim da aprovação automática;
3) soube provocar bem o adversário, fazendo-o perder tempo nas respostas para se explicar.
Contra Eduardo Paes:
1) mantém o discurso padrão de “sempre-lutei-pelo-Rio-e-agora-vou-melhorar-a-educação-e-a-saúde”, sem muitas diferenças para outros candidatos;
2) fugiu do tema da troca de partidos quando perguntado sobre isso;
3) não cansou de vincular Cesar Maia a Gabeira, em uma estratégia questionável (em 2006, Denise Frossard também só fazia perguntas ao seu rival, Sergio Cabral, criticando o governo Garotinho, do PMDB, mesmo partido do candidato); as provocações de Paes podem sugerir a imagem de alguém agressivo.
A favor de Fernando Gabeira:
1) apresentou propostas diferentes, baseadas em suas visitas a outras cidades;
2) enfatizou que busca a união de forças pela cidade sem loteamento de cargos;
3) relembrou que fez uma campanha limpa, sem sujar a cidade.
Contra Fernando Gabeira:
1) reforçou a insinuação de Paes de que conhece pouco o Rio, ao citar pouco a cidade e problemas concretos;
2) pareceu nervoso e irritado em alguns momentos;
3) não tem controle do tempo, na maioria das vezes passou do limite;
Conclusões gerais:
Logo no início, abordou-se o tema da segurança e pontuou-se uma diferença ideológica entre os candidatos. Gabeira acusou o governo do Estado de usar uma política do confronto e defendeu o uso da inteligência. Paes – que não se envergonhou em ser porta-voz de Cabral no debate – assumiu a postura política do governador e, ao dizer que o tráfico deve ser combatido, afirmou que “todos sabem qual a posição de Gabeira quanto às drogas”. Este jogo de palavras dava a entender que o candidato do PV apóia o tráfico. Porém, Gabeira não se defendeu, apenas reforçou que é a favor da legalização. Somente em outro momento ele lembraria que Cabral também defendeu a liberação das drogas. Entretanto, seria apenas a única distinção entre as propostas dos candidatos, muito semelhantes nas diretrizes.
No âmbito geral, Paes não falou nada de revolucionário, mas falou o que a população quer ouvir. Um método discursivo bem comum, mas correto: citou problemas da cidade – educação, saúde, segurança e transportes – e suas soluções de forma ampla, sem entrar em detalhes. Insistiu em colar a imagem de Cesar Maia em Gabeira e pediu várias vezes ao adversário “tranqüilidade”.
Já Gabeira tem o mérito de, pelo menos, apresentar propostas diferentes, trazidas de experiências de fora do Rio. Seu discurso de “visão a longo prazo”, de “ampla participação”, de “ouvir as pessoas” é legal, mas acho que a população prefere exatamente a “solução imediata”, como ele mesmo classificou o programa de Paes. As propostas de Gabeira acabam tendo algo de inusitado, quando os eleitores esperam ações mais práticas.
Gabeira mostrou-se despreparado até mesmo para a estrutura do debate: foi cortado várias vezes por ter estourado o tempo e perdeu oportunidades de apresentar propostas: em um momento, numa pergunta simples como “você sabe o preço da passagem de ônibus no Rio?”, resolveu respondê-la ao pé da letra e não falou nada do que pretende no setor de transportes.
No fim das contas, Paes demonstrou ser mais raposa do que Gabeira.

