Os cinco piores motivos para se odiar um dia chuvoso

5) Trânsito pior – o Rio já está cheio de motoristas malandros que fecham o cruzamento, ultrapassam sinais e estacionam em fila dupla, atrapalhando o trânsito. E o que acontece quando chove, a visibilidade diminui e todos se lembram que seus pneus estão mais carecas que o José Serra? Ahá… o tráfego se reduz a uma velocidade próxima a 1 km/h. Se o seu veículo (ônibus incluído) engatar a segunda marcha muitas vezes, é o seu dia de sorte. Portanto, chuva em dia de trabalho equivale a sugar toda a paciência de sua alma, pois é inevitável encarar o mais irritante tipo de trânsito: o para-e-anda. Pelo menos você já ganha um bom pretexto pra chegar atrasado ao trabalho. E não pense que o trem ou metrô vai ser sua salvação, pois todos pensam igualzinho a você, e sua viagem, ainda que seja mais rápida, será mais apertada.
4) Preguiça - vamos, confesse. Quando sua mão desliga o despertador e seus ouvidos reconhecem os pingos da chuva batendo no telhado e nas árvores, imediatamente um campo magnético se forma em sua cama e lhe atrai com força surpreendente. A luta é dura, mas o dever do ofício é mais alto e, a contragosto, você se levanta (uns 20 minutos depois). Mas, no leito, ficou a coragem pra encarar a corridinha matinal ou aquela ida até a academia. Depois das seis da tarde, a chuva é responsável pela diminuição imediata da importância do curso noturno em que você está matriculado e que sempre sonhou fazer. Assim, seu trajeto muda radicalmente e toma a direção de sua casa. Um balanço ao fim do dia é implacável: produtividade zero.
3) Mais um trambolho – sair de casa quando está chovendo exige a inclusão de um novo item à bolsa, à pasta ou às axilas: o guarda-chuva. O formato milenar de ponto-de-interrogação não foi desenhado à toa, pois o dono do objeto vive com uma dúvida: “onde deixei meu guarda-chuva?”. A única certeza é de que o item está na liderança dos Achados e Perdidos dos Correios. Se a chuva pega você desprevenido na rua, não se preocupe: à queda da primeira gotícula, uma legião de ambulantes surgirá de todos os buracos com um leque de guarda-chuvas novinhos para você comprar, a 5 reais cada. O nome do objeto, neste caso, é inapropriado, porque ele está mais para quebra-galho: a resistência e “enferrujabilidade” do negócio são impressionantes e, em poucos dias, há 50% de chances de ele aparecer misteriosamente envergado ou descosturado. Nas outras 50%, claro, ele sequer aparecerá.
2) Sapatos molhados - não bastasse seu tênis ou sapato já chegar encharcado e cheio de barro por causa da chuva, você ainda tem que tomar cuidado para não levar, na promoção, uma micose. Afinal, por mais fechado que seu calçado seja, a água sempre encontra uma fresta invisível para alcançar suas meias e, claro, seus pés. Se você está num lugar em que não pode tirar o sapato, terá que aguentar uma coceira que lhe tira qualquer concentração. A culpada, neste caso, não é apenas a chuva: ela encontra cumplicidade nas incontáveis poças espalhadas pela cidade e também nas ondas formadas por automóveis sádicos, que procuram os numerosos reservatórios de água formados por bueiros entupidos para afogar pedestres indefesos.
1) Passeio com obstáculos - um desafio dos dias chuvosos é manter a expressão “tolerância” perto da realidade, principalmente se você está andando em calçadas movimentadas. Como um guarda-chuva está ao alcance de todos (vide item “Mais um trambolho”), 95% dos transeuntes estão empunhando um. Normalmente, tomam a parte coberta da calçada, tornam a região sob a marquise mais povoada que supermercado em véspera de Natal e ainda deixam os sem-guarda-chuva ao deus-dará. A disputa pelo alto também é acirrada. Alguns guarda-chuvas parecem querer derrubar o seu, quando não baixam o nível e tentam furar seu olho na cara-de-pau. A fluidez nas ruas fica comprometida. Tente entrar ou sair de uma loja em dia chuvoso. Tarefa árdua, pois sempre haverá, na porta, uma multidão de pessoas procurando o guarda-chuva na bolsa ou sacudindo-o antes de guardá-lo. Ou, simplesmente, imobilizadas diante daquela precipitação nunca dantes vista chamada chuva.
E você, acha que existem razões piores para amaldiçoar aqueles dias em que São Pedro esqueceu a torneira aberta? Ou nada supera uma chuvinha gostosa no cangote? Conta aí.
P.S. Hoje fez um dia frio no Rio, e em pleno verão, em pleno janeiro. Coisa de doido. Mas não é a primeira vez. Em 2005, eu já falava sobre isso. Impensável há coisa de dez anos atrás. E ainda debocham quando falam de ecologia, aquecimento global e preservação do meio ambiente…




01:28
Subscrevo e registro em cartório. Digo mais: nunca é bom esquecer o guarda-chuva em casa, pois os tais quebra-galhos que os camelôs vendem aos borbotões na rua quando começa a chuviscar são invariavelmente made in China – portanto de procedência bem duvidosa, pra dizer o mínimo.
Pelo menos usamos os nossos dons de atleta, ao praticarmos o steeplechase através dos buracos da rua, e a coordenação motora, ao tentarmos matar os mosquitos que vêm desses tais buracos cheios d’água.
09:12
Excelente texto, meu amigo.
Sobre a mudança climática, há estudos que comprovam que essas alterações no clima independem da ação do homem. O que o homem faz é apenas catalizar um processo que já ocorreria de qualquer forma. São as “glaciações”. Processo natural.
Grande abraço.
13:48
Perret, eu concordo em número, gênero e grau. Por isso sempre procuro marcar minhas férias em períodos de poucas chuvas ou de temporal curto, sem frio. Agora, ter que ir pra rua com aquela chuvinha insistente que fica durante todo o dia, variando a intensidade e te fazendo voltar correndo do almoço porque quando saiu pra almoçar olhou pra cima e jurou que na próxima hora não ia precisar de guarda-chuva (ainda tem hífen?) é dose!!!
Agora, um dia na vida, bem lá no meiozinho das férias, naquele dia que você não tinha programado nada, acordou às onze, foi à janela e viu o tom bucólico do cinza no ar, chuvinha fina e cheirinho de terra molhada, aí, vale, não vale? O edredon te chama de volta, um videozinho, pipoquinha, boa companhia, meias nos pés… tem o seu lado bom, mas só assim mesmo!
Aproveitando: sugiro como tema o novo acordo ortográfico. Nos dê um pouco da sua luz com um parecer acerca do assunto!
15:34
Sou paulistana e adoro chuva. Talvez porque trabalhe em casa e não precise molhar os sapatos.
15:35
Dagner: só se concorda em gênero e número, grau apenas se flexiona…
Perret, seu gay, nem colocou um post em homenagem ao meu aniversário!!!
Com relação à chuva, eu gosto. Deixa de ser fresco…
22:27
Dagner, ainda não estou em condições de iluminar ninguém com a reforma ortográfica. É mais fácil trazer mais dúvidas do que esclarecimentos… Mas logo, logo, vou ficar por dentro e vou assumir de vez a nova ortografia. Valeu pela sugestão, muito boa.
21:21
Legal!
09:12
O vento de ontem vale uma atualização nesse POST: os guarda-chuvas que agüentaram passaram no teste! Havia vários deles abandonados pelas ruas e a maioria que estava em uso estava mais atrapalhando do que ajudando, quase sempre abrindo “ao contrário”… rsrsrsrs. Posso rir porque o meu resistiu!