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Morte da ciclista em São Paulo: é este o trânsito que queremos?

19/01/2009 - 10:14 - por Raphael Perret

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Márcia Regina Prado, ciclista morta em acidente na Av. Paulista. Foto: Bicicletada.org

 

Fiquei triste com a morte da ciclista Márcia Regina Prado, quarta-feira, 14, em São Paulo. Ativista de movimentos pelo estímulo ao uso da bicicleta, faleceu exatamente por acreditar que também tinha direito de usar as ruas da maior metrópole do Brasil. E tinha, como todos nós temos.

No Rio, também sou um entusiasta das duas rodas desmotorizadas. Três vezes por semana, pego a minha bicicleta e passeio pela Lagoa, pelo Aterro ou pela orla. Ótimo exercício relaxante, praticado em um cartão-postal maravilhoso. Com uma extensa malha cicloviária, o Rio parece oferecer melhores condições para o uso da bicicleta.

Mas não é bem assim. Andar na ciclovia não é uma atividade 100% tranquila. Carros estacionam sobre ela na maior e o asfalto é muito mal conservado.  As ciclovias ficam, em sua maioria, na Zona Sul e, por isso, não atendem a maior parte da população. Apesar de recentes medidas que visam integrar a bicicleta aos outros meios de transporte público, sobretudo trens e metrô, o Rio ainda está muito incipiente na oferta de boas opções aos ciclistas.

Entretanto, o grande problema não é a existência ou a manutenção das ciclovias. Para se chegar a ela, é preciso trafegar pelas ruas. E tome carro, moto e ônibus zunindo ao seu lado, para lembrar que todo ciclista desafia a vida. O calor carioca até poderia ser o maior obstáculo para o uso diário da bicicleta. Mas, sem dúvida, o trânsito ainda é o principal impeditivo.

Código Nacional de Trânsito especifica bem os direitos e deveres dos ciclistas nas ruas, estradas e avenidas. Logo, quem anda de bicicleta precisa e deve seguir algumas regras, mas também possui prioridades sobre veículos motorizados. Um carro que não reduz a velocidade ao ultrapassar um ciclista, por exemplo, comete uma penalidade grave (art. 220, inciso XIII). Para saber mais, recomendo o bravo manifesto do Mario Amaya, com argumentos que defendem as bicicletas nas ruas de qualquer cidade.

A morte de Márcia Regina, infelizmente, vai se tornar apenas mais um número na estatística dos acidentes de trânsito do Brasil, que atingem não apenas ciclistas, mas também pedestres, passageiros, motoristas, animais, todos. Tudo conseqüência de uma lista de fatores: maior adesão à velha lei de tirar vantagem; um fetiche inexplicável pela velocidade; um prazer incompreensível de demonstrar superioridade através da potência ou tamanho do veículo… 

Quem dirige vai às ruas para disputar corridas. E não me refiro à velocidade imprudente com que alguns veículos ziguezagueiam no trânsito. Mesmo em engarrafamentos, os motoristas não gostam de dar passagem, mesmo que o outro sinalize e implore por isso. Devem achar que, se o fizerem, estarão sendo ludibriados ou “ultrapassados” numa imaginária corrida pelo nada. 

A mentalidade no trânsito é só um reflexo da mentalidade geral dos cidadãos de hoje. Individualistas, acelerados, distraídos, alucinados. O motorista do ônibus que atropelou Márcia Regina disse “estar com a consciência tranquila”! Ninguém se deu conta de que esta sociedade mata. A ciclista foi a vítima de quarta-feira. De lá até hoje, outras dezenas. Quem serão os próximos?

Atualização (19/01, às 14:21): o famoso choque de ordem do prefeito vai orientar os ciclistas a andarem na ciclovia, e não na faixa da Av. Atlântica interditada nos domingos e feriados para pedestres. Muito justo, é isso aí etc. Tenho certeza de que os pedestres também serão orientados a não andar nas ciclovias, certo? Afinal, placas na orla já dão essa recomendação e eles já têm calçadão E a faixa interditada…

Vejam outros textos sobre o lamentável episódio (via, mais uma vez, Lucia Freitas):

Luto pela morte de ciclista – 1 – cmi
Luto pela morte de ciclista – 2 – cmi
O motor venceu – e você com isso?
Sempre Márcia – pedalante
Sua pressa vale uma vida? – cmi
Vivemos a guarra, aqui na cidade – luciana cm costa 
Fique em paz, Márcia – cmi
Márcia será sempre a nossa primeira dama – fixa sampa
Guerreira do asfalto – vendedor de bananas
Vida de ciclista – e você com isso?
Cicloativistas paraenses realizam Bicicletada Márcia Prado, contra a violência no trânsito – raoni
Márcia Regina de Andrade Prado – ciclobr
Chega de sociedade do automóvel – ecologia urbana
Não esqueceremos
Uma bicicleta parou na avenida Paulista – blog transporte ativo
Morrer na contramão – quintal
Ciclistas de luto – renata falzoni
Dia maldito na cidade maldita – Different Thinker
a gente sente muito – eu vou voando
Um mundo sem carros – olhos recém nascidos
Adeus, amiga – aninha
Após morte de ciclista, movimento faz homenagem na Avenida Paulista
boney
terra tv
Humanizar pra que? – rated b for bizarre
Ciclista morre atropelada na Av. Paulista – CMI Brasil
nota editorial – movimento nossa são paulo
Se ele der 20cm, eu já fico feliz – panóptico
Sem palavras – xpk
Paulista manchada de vermelho – milton jung
pedale em paz – Lilx
luto – bicicletada curitiba
Mais um luto – soninha

2 já comentaram “Morte da ciclista em São Paulo: é este o trânsito que queremos?”

  1. Salve Butuca Ligada!
    Bom post, as condições para se pedalar no Brasil aiinda são precárias, mas estão melhorando e muito.
    Aproveito para comentar que é um conceito antigo achar que as ciclovias estão na Zona Sul, apenas 38 % delas estão na Sul e Centro, 34% na Barra e Jacarépagua, 22% na Zona Oeste e apenas 6% na Zona Norte, mas por enquanto proque os novos projetos são todos para ZN e ZO veja um em:
    http://www.ta.org.br/site/area/arquivos2/ciclofaixa_barao_mesquita.pdf .
    e vc pode ver a localização das ciclovias cariocas aqui:
    http://www.ta.org.br/site/pop1.htm .
    Aproveito tb para te apresentar a organização carioca que luta há muitos anos por melhorias para os ciclistas.
    http://www.ta.org.br
    Valeu!
    Abraços
    Ze Lobo

     
  2. Quando penso nesse assunto, não consigo deixar de pensar também na farsa que é essa história toda das provas para tirar carteira. O cara tem que fazer 1.500 aulas práticas, 500 horas de aulas teóricas. Agora, pergunta para o motorista quais são os direitos do ciclista, e a maioria vai dizer que não sabe. Uma grande parte vai dizer que ciclista não pode andar na rua (pode e o motorista deve guardar distância de 1,5 metro E reduzir a velocidade na ultrapassagem; o ciclista, para sua própria segurança, deve cuidar para que seu veículo tenha campainha, retrovisor do lado esquerdo e iluminação noturna (olho de gato)).

     


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