Os Titãs e o tempo
Imagine que um grupo de amigos gravou cenas de suas farras, cheias de piadas de que só os íntimos acham graça. À primeira vista, Titãs – A vida até parece uma festa é isso. O documentário é uma colagem de cenas grudadas cronologicamente. Como o filme é repleto de elipses, sem narração e sem depoimentos recentes – as imagens ou são de arquivo da TV ou foram captadas pela câmera do titã Branco Mello – quem não conhece bem a história dos Titãs fica boiando em alguns momentos.
Entretanto, se o espectador tem algum vínculo com o grupo, poderá compreender alguns detalhes da carreira do atual quinteto, ex-octeto. Para explicar, preciso contar a história que eu conhecia da banda paulista. Considere que o relato a seguir foi baseado no meu conhecimento prévio ao filme, e somente algumas informações foram pinçadas de A vida até parece uma festa (ou seja, é muito difícil deduzir tudo isso que você vai ler a partir do documentário).
Começa o jogo
Os Titãs começaram fazendo um pop performático. Aproveitaram a grande quantidade de membros (não se perca: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos, Sergio Britto, Nando Reis, Marcelo Fromer, Tony Belloto e Charles Gavin; este substituiu André Jung, e Ciro Pessoa fez parte da banda no início) e a excentricidade física de cada um para, além de tocar, impactarem com a estética meio agressiva, meio escalafobética. Eram um João Penca & Seus Miquinhos Amestrados com letras ou mais ingênuas ou mais instigantes. As canções Sonífera ilha (1984) e Televisão (1985), por exemplo, são dessa época.
O grito
A prisão de Arnaldo Antunes por posse de heroína catalisou a energia subliminar do octeto. Num contexto pós-repressão, em que a juventude vivia, com pernas bambas, uma liberdade com que estava desacostumada, o disco Cabeça Dinossauro, lançado em 1986, e suas faixas Polícia, Porrada, Homem Primata e Bichos Escrotos representaram um grito coletivo, minimalista na forma e recheada no conteúdo. Era a explosão titânica, prolongada no disco seguinte, Jesus não tem dentes no país dos banguelas, de 1987. Foi a fase de maior popularidade do grupo.
A qualidade, porém, passou a cair. Suavemente, primeiro (Õ Blesq Blom, de 1989), e abruptamente, depois (Tudo ao mesmo tempo agora, de 1991). A época mudou, o cenário mudou (lembram-se de 1989?), mas a alma dos Titãs permanecia adolescente, com uma agressividade pueril (vide as músicas Saia de mim e Clitóris). As provocações soavam desatualizadas e descontextualizadas.
Sai Arnaldo Antunes. No filme, a banda afirma que “aproveita” o momento para conseguir uma sonoridade mais pesada. De fato, Titanomaquia, de 1993, traz a energia desejada, através de Jack Endino, produtor de discos de Nirvana e Soundgarden. Os Titãs ganham massa, mas ela parece anabolizada. Faltava estofo.
A guinada
Então vem Domingo (1996), vigoroso, porém manso. O estilo letras-curtas-e-rimadas-em-melodias-simples continua. Mas um novo caminho é percebido, e o destino se chama Acústico MTV (1997), o disco mais vendido da banda. É neste ponto que os Titãs sofrem as maiores críticas de meus amigos de geração. “Vendidos”, “frescos” e adjetivos semelhantes são dirigidos ao grupo. A mudança de estilo era óbvia. A motivação para tal, nem tanta. Falta de dinheiro? Não parecia que os integrantes da banda estavam com dificuldades para pagar o aluguel.
Neste momento do filme, aparece Nando Reis cantando Família (curiosamente, uma música do furioso Cabeça Dinossauro), Malu Mader sorrindo, crianças brincando, mulheres conversando. Eis o aconchego dos Titãs. E, 12 anos depois, encontro a resposta à dúvida surgida com o Acústico MTV.
De 1987 pra 1997, o grupo envelheceu, perdeu a irresponsabilidade que soava bem a garotos que acabam de lançar o primeiro disco, não aos veteranos com 15 anos de carreira. Os Titãs têm filhos, têm história. Uma história construída na sintonia com o tempo. Cabeça Dinossauro teve o sucesso que teve porque foi criado no momento oportuno. Lançado hoje, não teria um décimo do significado de 1986. Hoje, ninguém vai ao show esperando que Paulo Miklos cante “Clitóris/Clitóris,Clitóris/Ah,Clitóris”. Sim, estava na hora de guardar um pouco as guitarras e tirar os violões dos sacos.
A chegada da maturidade não impediu que os Titãs cometessem acintes (regravar Pelados em Santos, dos Mamonas Assassinas, não acrescenta nada à biografia). Mas também não lhes tirou a veia crítica (eles ainda comporiam A melhor banda de todos os tempos da última semana, em 2001). Mais importante do que isso, a nova fase lhes permitiu sofisticar Pra dizer adeus, do segundo disco, regravar É preciso saber viver, do Rei Roberto e compor a delicada Os cegos do castelo, canções impensáveis no cancioneiro dos Titãs dos anos 80. Quinze anos de estrada, rugas no rosto e filhos no colo dão carta branca para os Titãs tocarem É preciso saber viver. Eles sabiam do que estavam cantando.
O epitáfio, mas não o fim
O filme, se não comove quem é distante do universo da música, ajuda a esclarecer as mutações do grupo desde 1984, ano de gravação do primeiro disco. E o auge de Titãs – A vida até parece uma festa é revelador. A sequência começa com Marcelo Fromer aparece dando dicas sobre a linha melódica de Epitáfio a Sérgio Britto, autor da música. Em seguida, aparece reportagem da MTV dando notícia de que Fromer morreu atropelado por uma moto. Então aparece Britto, gravando sua canção para o disco A melhor banda…, no estúdio, dez dias depois da morte de Fromer. É de arrepiar. Afinal, ao contrário do que eu mesmo supunha, a música, com os versos “O acaso vai me proteger/Enquanto eu andar distraído/O acaso vai me proteger/Enquanto eu andar” foi composta antes da morte do guitarrista. O acidente tornou Epitáfio uma poesia sobre a fugacidade da vida. Era o tempo cobrando sua sintonia, fina, fina, com os Titãs.




09:52
De arrepiar mesmo: só de ler!
18:07
Excelente apanhado histórico dos Titãs, Mr. Perret! Depois desse texto, preciso realmente ir assistir a esse documentário, que ainda não vi.
23:26
Fala, Inagaki! Veja sim. Para quem gosta, é emocionante. Abraço!
12:02
Uma excelente sintese sobre a história de ssa que é sem dúvida a melhor banda de rock brasileira,porém discordo em relação a queda de qualidade em o blesq blom, que sem dúvida está entre os 3 melhores discos da banda e entre os 10 melhores de todos os tempos(da última semana)…