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Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
  

Trotes nas universidades têm que acabar

19/02/2009 - 10:16 - por Raphael Perret

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Os trotes universitários ficaram na berlinda neste início de ano. Dois casos graves, um em Santa Fé do Sul, envolvendo uma jovem grávida, e outro com um rapaz em Leme, ambas cidades do Estado de São Paulo, trouxeram à tona, mais uma vez, a discussão sobre as “brincadeiras” típicas do início dos períodos letivos das faculdades.

É abominável que ainda exista trote no século 21. Mesmo em um estágio avançado (ou não) de civilização, já temos intolerância demais no mundo. Aplicar trotes é uma valorosa contribuição para o aumento da violência.

Portanto, eu, se tivesse algum poder, seria radical: acabou o trote. De qualquer jeito. Nada de tinta, abaixo a máquina de cortar cabelo, chega de “pedágio” nas ruas. Ninguém encosta um dedo ou grita com calouro. Algumas práticas precisam ser proibidas integralmente, sem restrições. O trote é uma delas. Se uma brecha é permitida, ela rapidamente vira abuso.

A entrada pra universidade é um rito de passagem. É uma fase nova, de descobertas e que muda a vida de muitas pessoas, venham elas diretamente da escola, venham elas de um caminho mais longo, já amadurecidas, com trabalho e família constituída. Conheço muitos casos de vidas que se transformaram depois da faculdade. Por isso, frequentar a universidade já é um ritual em si.  O trote, logo,  fica sem função. Não tem razão de existir, a não ser os instintos sadomadoquistas  de um bando de indivíduos limitados.

Os mitos do trote

Claro que, nesta discussão, surgem algumas vozes em defesa do trote. Normalmente, levantam dois mitos claramente infundados: que “só leva trote quem quer” (1) e que “trote ajuda a integrar os alunos” (2).

Duas mentiras.

(1) É bonitinho divulgar que só leva trote quem quer e jogar a culpa na timidez dos calouros. Mas nos trotes que levei, ninguém deu essa opção. E ai do novato que ousasse enfrentar a selvageria reprimida dos animais. Um amigo meu da UFRJ disse que não queria tomar trote e cerca de vinte (eu disse VINTE) caras começaram a empurrá-lo contra a parede e gritar tresloucadamente. Se não fosse a intervenção de veteranos sensatos, algo pior poderia acontecer.

(2) É difícil de acreditar que um grupo estará integrado quando um sujeito xinga o outro, esbraveja palavras de menosprezo e lhe dá ordens estúpidas. União se constrói com naturalidade e através de afinidades, não em um ambiente repleto de hostilidade e grosserias. Na UFRJ, escapei dos trotes por questões circunstanciais. Isso não me impediu de fazer amigos tanto entre os colegas de turma quanto entre “meus” veteranos e “meus” calouros. O meu amigo citado no parágrafo acima contou que, depois das humilhações de praxe, os veteranos mal conversavam com os calouros e fingiam que não os conheciam. Outro amigo, também da UFRJ, fez um comentário preciso, que sintetiza essa falácia da “integração”:

Nunca vi dois calouros falando “cara, que maneiro aquela hora que coloquei a mão na sua bunda”, “é, você é meu amigão agora”. Tudo o que ouvi foram coisas do tipo “semestre que vem os calouros tão fudidos”.

Ou seja, trote não integra; apenas perpetua a selvageria.

(Normalmente, quem gosta de sofrer trote é exatamente quem estará liderando as agressões no semestre seguinte, auxiliado por veteranos imbecis que estão no limite da jubilação e se vinculam à faculdade somente para poder aplicar o trote. Em casos mais avançados de parvoíce, são ex-alunos já formados – e, provavelmente, vagabundos – que vão ao campus para soltar a franga reprimida por sua vida quadrada.)

Alternativas viáveis

Se o grande objetivo, no início do semestre, é integrar a moçada e comemorar a nova fase, há formas bem mais saudáveis do que quebrar ovo na cabeça do colega, rolar na lama ou levar saco de farinha na cara. Doação de sangue, de roupas e de alimentos são gincanas aceitáveis, desde que voluntárias e apenas incentivadas, e que em ambientes mais civilizados já são aplicadas. Mas há outras soluções criativas.

Um colega que fez Letras na Uerj contou que houve uma campanha de doação de livros ao diretório acadêmico, que os vendeu e, assim, conseguiu dinheiro para uma festa no início do semestre. Em outro caso, até fabricantes de cerveja patrocinavam as choppadas, por intermédio de ex-alunos da faculdade. Tenho certeza de que, nas universidades, há pujança de ideias novas para montar eventos bem mais legais.

O trote não contribui em nada para a sociedade. Então, por que não transformar o tempo dedicado a essa idiotice em tempo usado para uma atividade mais humana e criativa, em harmonia com o ambiente universitário?

P.S. Ah, e não podemos esquecer a omissão contínua das universidades na aplicação dos trotes. Apesar de a prática causar danos às salas e interromper as aulas, as faculdades lavam as mãos e raramente se posicionam. Pois lembro a elas que as instituições de ensino superior, como promotoras da educação, são regidas por diversos princípios previstos na Lei de Diretrizes e Bases, dentre eles o respeito à liberdade e apreço à tolerância, conceitos contraditórios à permissividade com o trote.

Atualização (19/02, às 14:26): o boletim eletrônico da UFRJ fez uma matéria sobre o trote. Vale a pena ler.

11 já comentaram “Trotes nas universidades têm que acabar”

  1. O curioso é saber de onde vem tanto ódio. Na verdade não é ódio, é falta de amor.

     
  2. Karine, não é ódio, não! É ESTUPIDEZ, mesmo!
    Infelizmente, nós vivemos numa sociedade de maioria ESTÚPIDA.
    Mais infelizmente ainda, tenho o desprazer de acompanhar na mídia discussões sobre a característica criminal do trote. Trote é crime, sim: tem que ser tratado na esfera criminal!!!
    Dentro das faculdades, se você não se propõe a participar dos trotes, os ESTÚPIDOS se sentem no direito de te humilhar, quando não te agridem. Qualquer uma das duas atitudes (humilhação ou violência) são crimes previstos na nossa CF. Também infelizmente, nossa CF é um grande livro cheio de conteúdo inutilizado ao longo do tempo, posto que falta vontade política no Brasil pra fazer cumprir a Lei. Nossos políticos, em vez de se preocuparem com a fiscalização das leis existentes, acham bonitinho passar o tempo criando novas leis, quase sempre com o intuito de favorecer algum de seus devaneios ou negócios pessoais. Novas leis que, quando a favor do povo, jamais serão cumpridas!!!
    O Brasil é mesmo o país do futuro… longínquo!

     
  3. Meu caro. O sujeito de Leme levou uma CHICOTADA. Não precisava dizer mais nada.
    P.s.: A Faculdade de DIreito da UFRJ anunciou medidas “drásticas” contra o trote. Em comunicado aos alunos, a Direção informou que trotes violentos ou vexatórios nas dependências da faculdade poderão ser punidos com advertência oral e repreensão. Parece que o pessoal ficou bem receooso…

     
  4. Trackback

    [...] Não se esqueça: trotes nas universidades têm que acabar. [...]

     
  5. Coisa de viado, como diria o Bial

     

  6. Fernando

    Esses veteranos das universidades não passam de marginais. Jesus disse; amai o teu próximo como a ti mesmo. E fazei pelo teu próximo o que gostaria que fizessem a voco. o que voce planta com certeza irá colher mais cedo ou mais tarde. por isso acontece coisas com as pessoas e elas não sabem o porque. e os outros dizem : Ele(a) era tão bonzinho! Será?

     
  7. Poxa… eu nem te dei trote… rsrsrs!!! dei? não, né? :o )
    Só lembro de ter tomado trote… e acabei casando com o vetereno que faltou no dia do trote hahaha…

     

  8. Raphael Perret

    Não. Ninguém me deu trote na UFRJ. A galera aplicava após as aulas de Cálculo I, e eu já fazia Cálculo III, aí ficava em outra sala. :)

     

  9. Ezequiel

    Acabar acho meio difícil! Ainda tem muitos cretinos ridiculos que se orgulham de exercer tal violencia. Sou “bixo” de um dos campus da Unesp, e presencio situações lamentáveis, ainda mais por se tratar de graduandos cursando o ultimo ano (dão aula pra cursinho, E.M), que bosta de profissional será esse. Trotes que abalam a integridade física do calouro, creme dental no anus, mastigar regugitação de outros calouros, que coisa mais repugnante. Eles se orgulham de fazer isso, se acham os melhores, e não passam de filhinhos de papais mimados que por não servirem para outra coisa fazem isso. Isso não entegra merda nenhuma, os veteranos não olham para voce, (os que dão trote) alias olham sim, e mandam voce ajoelhar pra “tentar parecer inferior a ele” e viram meia garrafa de pinga. O que pelo menos nos deixa tranquilos é que mais cedo ou mais tarde esse achismo superior é barrado e futuramente ate mesmo pelos proprios bixos deles, que ao inves de ficar querende ver fulano pelado, ou ciclano vestido de mulher, correr atras de seus ideais academicos e ultrapassou esses babacas.

     
  10. eu fiquei com esquizofrenia depois de ter tomado trote na ufrrj
    abandonei a faculdade nao aguentei a pressao dai surtei

     

  11. olga loureiro

    O trote que recebemos na ESDI/UERJ em 1993 foi extrememente humilhante. Um festival de ofensas e constrangimento, com a participação de pelo menos 1 professor, inclusive. Na festa de confraternização, que nós calouros patrocinamos, a decoração constava de desenhos, muito bem feitos por sinal, de nós calouros (fornecemos fotos!) representados como animais ou fazendo sexo com os colegas, devidamente apelidados da forma mais ofensiva possível (as meninas eram feias e os rapazes homosexuais, claro). Até hoje me pergunto porque não destruímos os cartazes…

    A justifcativa para um trote seria o entrosamento dos colegas. Só serviu, de fato, para conhecermos os colegas frustrados e os pobres de espírito que comandavam as agressões e se divertiam.

    No ano seguinte, tenho o prazer de dizer, nossa turma (ou uma parte dela), que deveria “dar o trote”, abortou o trote agressivo que já ia sendo organizado por alunos de anos anteriores, aqueles mesmos, denunciando a violência desnecessária e questionando as reais intenções da tal rapaziada desqualificada.

    Um certo professor me relatou que, num determinado trote, os sapatos de uma aluna foram “roubados” e não devolvidos fazendo com que ela tivesse que ir descalça para casa. A aluna jamais retornou. O professor encerrou o relato afirmando que essa aluna, obviamente, não tinha condições de frequentar aquela escola.

    É, quando um professor pensa assim…

    Enfim, uma pessoa pode impedir um trote. Não vamos nos omitir, né gente. Uma omissão a gente nunca esquece. Aproveito pra me desculpar com os colegas, que na ocasião eu sequer conhecia. Eu devia ter removido os cartazes! Eu devia ter removido os cartazes!

     


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