Carnaval 2009: o melhor de todos os (meus) tempos
Fomos descansar, pois na segunda-feira iríamos ao desfile das escolas de samba. Antes, como todo carioca que se preze faz em um carnaval ensolarado, uma ida à praia. Descanso à tarde e rumo ao Sambódromo à noite. Estação do metrô da Central movimentadíssima, com foliões carregando fantasias, camelôs vendendo almofadas e cambistas intimidando em busca de escambo de ingressos. O calor era muito forte, mesmo já à noite. O caminho era bem sinalizado, mas as ruas da Cidade Nova não deixam dúvidas quanto à má conservação daquela área do Rio de Janeiro. Casas decrépitas e um cheiro insuportável de xixi em todos os cantos dominam a rota.
Na arquibancada do setor 3, uma visão excelente da avenida. É possível ficar pertinho da bateria, que fica no primeiro box durante a primeira meia hora do desfile da escola. E quando passa o último componente, a escola seguinte já começa a se armar. Ou seja, os intervalos são bem mais interessantes do que o blá-blá-blá infindável da cobertura da Globo. O calor era absurdo. E, ao vivo, entendi porque as arquibancadas, da TV, parecem receber friamente todas as escolas: a quantidade de turistas estrangeiros é muito grande. E olha que o setor 3 nem é o destinado aos gringos. Na última vez que fui ao sambódromo, em 1995, ainda era possível conversar em português com os presentes. Hoje, a bateria das escolas de samba causa alguma sensação estranha ao público de franceses, japoneses e americanos. Com exceções de algumas máquinas humanas que não paravam de sambar.
Outra conclusão interessante, 14 anos depois de volta ao Sambódromo, é constatar como as escolas estão tecnicamente muito parecidas, tornando difícil mesmo o trabalho dos jurados. Muito luxo, cores e uma organização maior do que de outros anos. Mas, ainda assim, o Salgueiro fez um desfile brilhante, cujo único deslize foi um buraco formado à frente do segundo carro, que teve problemas pra entrar na Sapucaí. Fora isso, uma evolução ininterrupta, uma distribuição equilibrada das alas, um samba que, se não é maravilhoso, funcionou e um enredo (o tambor) desenvolvido com maestria por Renato Lage. Desde 2002, quando a Mangueira ganhou com Brazil Com “Z” É Pra Cabra Da Peste, Brasil Com “S” É A Nação Do Nordeste, não havia um favoritismo único na apuração.
Mas um item que, a meu ver, pode ter feito a diferença na comunicação com o público (que saudou o Salgueiro com ardor) foi a distribuição de uma cartilha que explicava ala a ala da escola. Feito com boa impressão, colorido e didático, o caderninho serviu para que não só o jurado ou o telespectador, mas o público presente entendesse cada fantasia ou carro alegórico. Uma ação simpática, importante e que deveria ser obrigatória a todas as escolas. Ou não lhe parece que, se não fossem as legendas da Globo, você boiaria com a intenção do carnavalesco com aquelas plumas amarelas sobre uma fantasia cor-de-abóbora? Mais um ponto para o Salgueiro, além dos muitos que lhe renderam, com justiça e merecimento, o título de campeã do carnaval 2009, depois de 16 anos sem saber o que é ganhar. Lamentável, mesmo, só a queda do Império Serrano (sobre a qual Marcelo Moutinho escreveu um texto duro e preciso), conjugada ao quinto lugar de uma escola como a Grande Rio.
Há quem se espantará: “mas você só fez isso?”. É. E, por isso, a terça-feira foi mais relax. Fui dormir às 7 da manhã, levantei para almoçar ao meio-dia e meia, voltei a dormir e acordei de vez às 18h. Fui ao cinema ver O Curioso Caso de Benjamin Button, gostei do filme (melhor do que o oscarizado Quem quer ser um milionário, ao qual assisti dias depois), trabalhei na quarta-feira de Cinzas (pela primeira vez em 30 anos) e comemorei o título do Salgueiro, um belo presente de aniversário oferecido por Momo. Após dias de alegria e êxtase, terminou, enfim, o melhor carnaval de todos os tempos… vividos por mim.

