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Manifestação contra a “ditabranda” da Folha de S.Paulo

02/03/2009 - 08:31 - por Raphael Perret

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Um protesto em frente à sede da Folha de S. Paulo, na Alameda Barão de Limeira, 425, na capital paulista, está marcado para o sábado que vem, dia 7 de março, às 10 da manhã. A manifestação, organizada pelo Movimento dos Sem Mídia, será um ato em repúdio ao episódio da “ditabranda” e em solidariedade aos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides.

Não está sabendo? Na calada da noite pré-carnavalesca, em 17 de fevereiro, a Folha publicou um editorial sobre a vitória de Hugo Chávez no referendo que lhe valeu a possibilidade de reeleição ilimitada. Tudo ia dentro dos conformes democráticos quando, em um trecho, lia-se o seguinte:

Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso.

Pulularam críticas à Folha sobre o uso do eufemismo “ditabranda”. Duas cartas, as dos professores Fabio Konder Comparato, de Direito da USP, e Maria Victoria Benevides, da Faculdade de Educação da mesma universidade, receberam uma resposta grosseira do jornal, que chamava os missivistas de cínicos e mentirosos. Dias depois, novas cartas de ambos seriam publicadas, mas sem resposta (leia o teor das missivas e a reação da Folha no artigo do jornalista Luis Antonio Magalhães, Direita, volver!).

A indignação é óbvia e justa. Afinal, o período em destaque trazia pelo menos duas afirmações acintosas nele embutidas:

(1) o regime militar no Brasil teria sido uma ditadura pero no mucho e mereceria alguma classificação mais amena, sabe-se lá por quê. Ora, foi uma ditadura, sim, e uma ditadura terrível, por uma série de atitudes perpetradas desde o núcleo do governo até os porões de delegacias. Se a assinatura do AI-5 e a morte de Vladimir Herzog, para ficar em dois exemplos célebres, não são típicos de uma ditaDURA, uma revisão de conceitos se faz urgente.

(2) o termo “ditabranda” seria comum, popular, consensual. O jornalista Luis Antonio Magalhães, poucos dias depois do editorial, fez uma pesquisa no Google. Os únicos resultados da busca por “ditabranda” se referiam, exatamente, ao editorial da Folha. Ou seja, ninguém nunca usou essa expressão por aqui. Mas descobriu-se, depois, que a palavra foi dita por um homem de alma caridosa e totalmente insuspeito.

É um absurdo que um veículo jornalístico amenize a estrutura política de uma ditadura. Como diz Eugênio Bucci em seu (ótimo) Sobre ética e imprensa, não há jornalismo sem democracia, pois a ética jornalística – e, consequentemente, o exercício do jornalismo – depende da existência de um ambiente minimamente equilibrado e plural para os meios de comunicação. Ainda conforme Bucci, o compromisso do jornalismo deve ser um compromisso com a observância e o aperfeiçoamento das regras democráticas. Portanto, relativizar a ditadura é um desserviço às instituições brasileiras, é uma admissão de inaptidão para a atividade jornalística e, ainda, uma contradição com o papel que a Folha tanto gosta de divulgar que teve em 1984.

Ainda bem que, hoje, o respeito à democracia é mais cristalino e permite manifestações como a do próximo sábado. A reação da Folha revelará o quanto ela sente saudades da tal “ditabranda”.

Atualização (02/03, às 22:44): acrescentei o endereço do jornal.

7 já comentaram “Manifestação contra a “ditabranda” da Folha de S.Paulo”

  1. Vocês estão de má-vontade ou não entenderam o artigo…

    Está CLARO que o autor quis demonstrar através de um trocadilho que a ditadura brasileira foi menos “intensa” que as estrangeiras não no sentido de ser “boazinha” mas sim no sentido de ter objetivos menos intrusivos, e não querer alterar tanto o regime de coisas quanto outras dita”duras”.

    A de Cuba, por exemplo, queria tirar o capitalismo, matar *milhões* de pessoas, invadir os EUA.

    Já a brasileira se contentava em mandar. Não queriam mudar o regime econômico, não tinham inimigos planejados (fora os que se opunham a eles, obviamente, que eram mais inimigos “incidentais”) e nem tinham pretensão de dominar o mundo.

    Entendeu onde está o “brando”? Não estavam falando de tortura, e sim dos objetivos que eram, sem sombra de dúvida mais “brandos” que os das dita”duras” verdadeiramente “duras”

    Não estão falando em termos absolutos, e sim relativos.

    Uma peça de concreto comum é considerada “mole” em relação a uma de concreto armado com aço. Quem diz isto está correto, não é um “desalmado” que tinha que sentar em cima de uma para aprender o que é bom pra tosse…

     

  2. Raphael Perret

    Joca, não precisa explicar, entendi perfeitamente o que o editorialista quis dizer. E continuo achando um acinte, pois um regime político que suprime liberdades individuais, tortura e mata é, sim, DURO, não importa as intenções que tenha.

    Não havia “inimigos planejados”? Ué, então por que deram o golpe?

    Sim, falamos em termos relativos. Sob este raciocínio, existem ditaduras boas e ditaduras ruins? Existem ditaduras light? No Chile, na Argentina e em muitos outros países o sangue derramado foi muito pior. E por isso devemos aceitar o que ocorreu no Brasil? “Ah, não, vejam bem, lá fora muito mais gente morreu.”. Só faltavam dizer “e deem-se por satisfeitos”.

    Não adianta. Até fico curioso em fazer comparações de estatísticas econômicas, sociais, culturais entre o período do regime militar e o da Nova República. Mas um jornal amenizar a estrutura política de uma ditadura é inaceitável.

     
  3. Raphael na verdade eles estão defendendo o que fizeram durante o regime, participando ativamente daquilo tudo.

    Não sou eu que digo isso, mas Élio Gaspari em seu A Ditadura Escancarada
    “Carros da empresa [Folha] eram emprestados ao DOI, que os usava como cobertura para transportar presos na busca de ‘pontos’ ” (p. 395).

    Nunca foi desmentido pelo jornal.

    VERGONHOSO.

     
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