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Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
  

As cinco escalações mais inusitadas da história dos shows no Brasil

20/03/2009 - 00:16 - por Raphael Perret

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Parece que os fãs do Radiohead estão organizando uma vaia coletiva durante a apresentação dos Los Hermanos, que abrem os shows do Kraftwerk e da banda inglesa nesta sexta, aqui no Rio, e domingo, em São Paulo. Besteira. Não creio que a banda brasileira esteja pedindo pra tocar ou estejam dando uma de penetra numa festa que promete ser boa. Deixem os caras pelo menos subirem ao palco. Se fizerem um show fraco, aí sim…

Além disso, o som dos Los Hermanos não é lá a coisa mais discrepante do que apresenta o Radiohead. Ainda diremos que os dois grupos são praticamente gêmeos, se levarmos em conta as combinações absurdas que produtores de shows, revelando todo o seu (des)conhecimento musical, já tiveram a coragem de montar e que deram, em muitos casos, dor de cabeça e objetos na cabeça de muitos artistas.

Em homenagem aos shows deste fim de semana, fiz uma lista dos cinco encontros mais inusitados da história das apresentações musicais realizados no Brasil. Por coincidência, todos foram no Rio de Janeiro.

5) Herva Doce e Kiss, Maracanã (1983) – tenho poucas informações sobre esta reunião inesperada. Mas não é fácil imaginar o rock-farofa do Kiss, com seus fãs pseudorrebeldes, sendo precedido, no Maracanã, por uma banda cujo maior sucesso, até então, era Erva venenosa e que ainda produziria Amante profissional, pérolas do pop-rock brasileiro debochado, recém-desamarrado da ditadura militar. Sem registro audiovisual da apresentação do Herva Doce, deixo-os com um clip do maior sucesso do grupo.


4) Ney Matogrosso, Rock in Rio I, Cidade do Rock (1985) – festivais são ótimas oportunidades para desencontro entre artistas e público. Acomodar tantas estrelas sempre reserva para algum cantor ou grupo (geralmente brasileiro) a impaciência e a falta de educação de fãs de rock pesado. Tivesse mais sensibilidade, Roberto Medina, organizador do Rock in Rio, não poria Ney Matogrosso no mesmo dia em que se apresentariam Iron Maiden, Whitesnake e Queen (e haveria ainda outra escalação polêmica neste dia, aguarde). Contam Edmundo Barreiros e Pedro Só, em seu livro 1985 – O ano que o Brasil recomeçou:

 

O show de intolerância dos metaleiros começou logo na abertura do festival, no dia 11 de janeiro. Ney Matogrosso, tido e havido como um dos melhores frontmen brasileiros, não deve ter acreditado quando ouviu as primeiras vaias. Ele era o maior cachê entre os artistas nacionais: estava levando R$ 120 milhões de cruzeiros, muito mais do que a segunda colocada, Rita Lee (que faturou oitentinha), e um universo acima do lanterninha Kid Abelha, que ganhou apenas cinquinho. Ney xingou de volta e usou a raiva que estava sentindo para seguir em frente com seu rolo compressor. No fim das pedras, conseguiu de certa forma superar as hostilidades. Só não foi poupado dos gritos de “viado!”, emitidos por caras ansiosos para ver logo o collant branco do Freddie Mercury ou as madeixas do David Coverdale.

A verdade é que Ney Matogrosso foi muito macho.

Veja o momento histórico em que o cantor abre o primeiro dia do primeiro Rock in Rio com América do Sul.


3) Lobão, Rock in Rio II, Maracanã (1991) – e a confusão se repetiu seis anos depois, na segunda edição do festival. Em um episódio mais famoso, Lobão subiu ao palco do Maracanã depois do Sepultura e antes de Megadeth, Queensrÿche, Judas Priest e Guns’n'Roses. O brazuca começou com Vida Louca Vida e tentou continuar com Canos Silenciosos, mas, depois de tomar tanta lata na cabeça, parou no meio, agradeceu o apoio de alguns, deu bronca nos metaleiros e foi embora, deixando o palco para uma apresentação efêmera (e mais surreal ainda) da bateria da Mangueira. Veja abaixo a apresentação da única música que Lobão pôde tocar inteira e a edição – com críticas um pouco acima do tom e repletas de preconceito – que a reportagem da Globo fez sobre o episódio.

 

(Há algum tempo, achei um vídeo no YouTube com a versão completa do pito cheio de palavrões que o Lobão dá na plateia, mas infelizmente não achei mais o arquivo.)


2) Carlinhos Brown, Rock in Rio III, Cidade do Rock (2001) – mas não é que Roberto Medina não aprendeu?! A escalação de Pato Fu no dia em que, mais uma vez, o Guns’n'Roses era a estrela, já era temerária, mas o público não implicou muito com a voz suave de Fernanda Takai. Porém, assim que Carlinhos Brown pisou no palco, não se sabia de onde saíam tantas garrafas. Não fosse a agressividade do ato, até que o efeito estético era bonito: vários elementos voadores convergiam na direção de um agitado cantor sem camisa. Carlinhos Brown, de todos os citados aqui, foi o mais provocativo, reagindo às hostilidades com frases de efeito (“Podem atirar o que quiserem, nada me atinge!”), com uma interpretação do hino nacional à capela e, no fim, até com grosserias (“Podem enfiar agora o dedo no traseiro”). Não me espantaria se Carlinhos Brown chamasse alguém pro pau ou se alguns desordeiros subissem no palco. Eu estava lá: o clima ficou tenso o show inteiro, mas nada de grave aconteceu. Todos os detalhes do conflito estão no vídeo abaixo:

 


1) Erasmo Carlos, Rock in Rio I, Cidade do Rock (1985) – ok, vamos dar um crédito ao Medina. Ele achava que, ao emular Woodstock num grande terreno em Jacarepaguá e gerar um astral de paz e amor, poderia fazer metaleiros ovacionarem Erasmo Carlos. Mas não dava. Naquela noite, pelo menos, não dava. Se Ney Matogrosso escapou com mais facilidade da ira do público metido a besta, o Tremendão sentiu na pele a intolerância da plateia. Erasmo também não ajudou: apareceu com um figurino patético, um misto de alienígena de filme B com garota de abertura do Fantástico, e ainda perdeu a voz (meu padrinho, que estava na Cidade do Rock, se lembra dos arranjos sendo executados pela banda e de Erasmo, no telão, mexendo a boca mas sem emitir som algum). A recepção foi tão hostil que o fundador da Jovem Guarda, que cantaria novamente durante o festival, mudou de data para evitar novos confrontos. Segue um relato mais fiel do ocorrido, também escrito por Edmundo Barreiros e Pedro Só:

 

Quando Erasmo Carlos subiu ao palco, a coisa ficou ainda pior. Aquele homem de 43 anos que estava lá não era o sócio-fundador do rock nacional, não era o patrimônio cultural do pop brasileiro, vinte anos de sucessos, coisa e tal. Os implacáveis metaleiros não enxergavam nada disso, bicho! Para eles, o que estava ali era um coroa careta metido nas roupas exclusivas do seu clubinho doidão – e, cá pra nós, aquele figurino em couro preto e tachinhas ficou tremendamente ridículo mesmo. Para os moleques fazendo chifrinho com os dedos, Erasmo era tão-somente aquele mané que cantava “Pega na mentira” e “Dá um close nela” no rádio. Eles odiaaaaavam rádio!

E deu-se o horror. Erasmo atacando de Gatinha manhosa e tome lata, tome bolinho de terra, tome objeto voador não-identificado… “Foi um soco na cara, mas foi bom”, diria o Tremendão, muitos anos depois do atropelamento.

Veja, então, a apresentação de Erasmo na primeira noite do Rock in Rio, há 24 anos. Destaque para a chamada feita por Roberto Carlos, para a tentativa do Tremendão comprar a plateia homenageando ícones do rock já mortos e, claro, para a roupitcha do moço.


O mais engraçado de tudo é que a maioria das bandas (pra não dizer todas) cujos fãs foram agressivos com os artistas são mais farofas que aquelas guarnições servidas nos melhores churrascos do Rio de Janeiro…

 

E você, se lembra de alguma outra reunião inusitada de artistas que tenha gerado confusão?

8 já comentaram “As cinco escalações mais inusitadas da história dos shows no Brasil”


  1. josé luiz

    Uauuu!!! Ney Matogrosso entrou fortíssimo nesse palco, hein!?
    Eu não havia nascido ainda, na época desse primeiro Rock in Rio, mas sempre ouvi dizer que a garra de Ney abrindo o festival foi impressionante, que ele conseguiu superar a hostilidade dos metaleiros, impor respeito e sair aplaudido.
    Também, o cara tem um puta carisma e cara pra caramba. Grande Ney!!! Demais esse vídeo.

     
  2. Fala, xará! Beleza?
    Cara, vou te falar que eu estive em duas dessas ocasiões: Lobão e Carlinhos Brown.
    Numa boa, acho que os dois foram pessimamente escalados no dia do Heavy Metal.
    Teve uma outra situação dessas que presenciei ao vivo. Um show do Faith No More, no Maracanãzinho, que teve como abertura uma banda chamada Maggie’s Dream.
    Não chegaram a atirar nada no palco, mas foi uma das maiores vaias que já vi na vida. E a banda cismou em tocar seu show inteiro, E o show inteiro foi debaixo de vaias.
    O problema é que o vocalista dessa banda era o Robby Rosa, um ex-Menudo. O cara até tentou agradar um pouco no final, colocando uma camisa do Flamengo, mas acabou cantando a última música de costas para o palco e foi embora.

     
  3. Rapha,

    Esse post tá imperdível. Herva Doce e Kiss é demais.

    Mas acredite: escalações inusitadas não é privilégio nosso, não. Eu mesma vi, ou melhor, ouvi com meus ouvidos aqui na Alemanha no Sonne Mond & Sterne que é festival de música eletrônica o Scissors Sisters antecipando o Kraftwerk! Ninguém entendeu nada com aquela biba colorida (que parece receber santo dos Bee Gees) pulando que nem confete no palco. Bizarro é pouco.

    Bjs,
    Cla

     
  4. Carlinhos Brown foi dose… garrafinhas de água de Schincariol voando em direção ao Palco, Presenciei ele falando mal de rock em pleno Rock in Rio. A resposta foi uma ironia ao Hino Nacional, cantado em estilo “La la la la …”. Embora a plateia nao fosse das mais abertas a o outros estilos musicais, ele mereceu. Ótimo post.

     

  5. Carlos Renato

    Sensacional esse post, meu amigo. Sensacional…

    Viagem no tempo legal mesmo… Que saudades!

    Abração!

     
  6. Fala, Raphael! Também achei que não teve nada demais essa escalação. Radiohead e Los Hermanos compartilham muitos fãs e deve ter tido muita gente que viu a abertura dos Hermanos como um estímulo a mais para ir ao show. Já o Kraftwerk, naquele espaço, acho que não funcionou bem. Se o som estivesse mais alto, aí talvez eu me empolgasse mais.

    E um comentário sobre o Carlinhos Brown: ele chamou o público de alienado, disse que eles escutavam rock americano sem nem entender as letras em inglês e que essas letras não passavam mensagem alguma e tal. O sujeito se chama Carlinhos “Brown” (por que não “marrom”?) e cantava aquela música super edificante da “água mineral pra você ficar legal”. Porra, fala sério, né? Abraços!

     
  7. Sem falar que o Carlito Marrón cantou no mesmo dia de Oasis e Guns n’Roses…

     
  8. Los Hermanos é melhor que Radiohead

     


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