Veja tem medo de “caça aos ricos” e estimula o consumo do luxo
Na época da conexão via modem de 14.400 e Trumpet Winsock, meu pai usou um e-mail meu para se cadastrar no site da Editora Abril. O endereço eletrônico ainda existe, e de vez em quando eu o consulto. Hoje, chegou um e-mail da Veja, divulgando a edição semanal da revista, cuja capa versa sobre a condenação da dona da Daslu.
Bem, já faz tempo que a revista abandonou a pecha de imparcial. Ninguém ignora qual a angulação da Veja sobre assuntos políticos, econômicos, sociais e culturais… quero dizer, sobre tudo, né? Logo, não era pra eu me surpreender com certos trechos do editorial da revista, publicados no tal e-mail:
É preciso desestimular as tentativas de enxergar na punição da dona da Daslu uma condenação também a todos aqueles que, apenas por desfrutar uma boa situação material, parecem aos olhos do populismo rasteiro cidadãos privilegiados e inimputáveis. A caça aos ricos é uma tentação suicida que, como demonstra a história, só produz mais miséria moral, política, econômica e social.
Deve-se refrear também o impulso de ver no comércio de artigos caros e requintados apenas mais uma demonstração viciosa das classes abastadas.
As pessoas que fabricam e vendem essas mercadorias, desde que respeitem as leis, são cidadãos tão úteis à comunidade quanto quaisquer outros. Como toda indústria, a do luxo cria empregos, produz riqueza e qualifica a mão de obra – e permite que as pessoas exerçam sua liberdade individual também na maneira como dispõem de seu dinheiro.
Eu não me surpreendi mesmo. Mas eu fico preocupado com a disseminação desse tipo de ponto de vista. Trata-se de uma opinião leviana, que teme o fim da impunidade e é incoerente com as ações de responsabilidade social da Abril.
Explicando. Diz a revista que “a caça aos ricos é uma tentação suicida que, como demonstra a história, só produz mais miséria moral, política, econômica e social”. Porém, a polícia não está caçando ricos, e sim bandidos. Gente que rouba, frauda, corrompe e se corrompe. Por coincidência, veja você, muitos destes bandidos… são ricos! E ter riqueza, Veja, por acaso lhes isenta da punição pelos crimes que cometeram? A condenação de Eliana Tranchesi é exemplar. Mostra que, sim, a impunidade – um dos piores males desta sociedade brasileira malandra e paternalista, a base de toda a sujeira moral dos nossos tempos – pode dar espaço à justiça. Resta-nos saber qual o temor dos editores de Veja diante da condenação generalizada de ricos.
Depois, o semanário escreve que “deve-se refrear também o impulso de ver no comércio de artigos caros e requintados apenas mais uma demonstração viciosa das classes abastadas”. É estranho ler isso numa revista de uma editora com iniciativas em prol da sustentabilidade, da qual um dos pilares básicos é o consumo mais consciente. O mais vergonhoso é o surrado argumento da “criação de empregos, produção de riqueza e qualificação da mão de obra”, muito usado também para defender indústrias de finalidades questionáveis. A propósito, não sou contra “que as pessoas exerçam sua liberdade individual também na maneira como dispõem de seu dinheiro”. Mas indago se a revista não deveria ter outra postura, depois de fazer várias capas apregoando o contrário.
Veja há tempos deixou de ser dirigida a um público mais amplo. Seu objetivo não é trazer informações com análise sensatas, mas sim a opinião da revista sob o tom de dogma. Personalidades com ideias contrárias são ironizadas e ridicularizadas. Aqueles que coadunam com a linha editorial ganham elogios e espaço de sobra. Essa postura afastou muitos leitores. Atualmente, quem lê a Veja cada vez mais é identificado com as “gracinhas” dela. A chance de seu público digerir esse editorial sem questionamentos é muito grande.
Uma pena. Se, há alguns anos, a revista era uma publicação importante para a sociedade, hoje virou um panfleto, que só interessa a quem com ela concordar, empobrecendo o debate.
Melhor ficarmos mesmo com a Veja das antigas.


22:42
Revistinha hipócrita. Clap!
11:02
Um fenômeno que está acontecendo em revisas e blogs, está relacionado com a idéia do só preciso agradar quem me lê / quem anuncia comigo. Derivado da idéia da fidelização e na concentração naqueles clientes que mais retorno dão a empresa.
Assim, você fica cada vez mais radical, diminui seu público alvo, mas o torna um bando de zumbis prontos pra comprar e fazer o que você mandar.
Isso não é de hoje. Hitler? Mussolini? Kamikazes? Homens bomba? Alguém acha que tem algo a ver?
Como está na moda hoje em dia escapar da alienação mainstream pra cair numa alienação na long tail, é juntar a fome com a vontade de junkfood.
12:51
Confesso que gosto de ler muitas das matérias da Veja. Desde de o insuportável Diogo até as entrevistas (orderm inversa a da revista). Dispenso, em geral, a coluna Lya Luft que naquele espaço expõe posições bem previsíveis sobre amenidades (a crítica é sobre a coluna apenas, não conheço outras obras da autora) e as cartas dos leitores também desconsidero. O público é demasiadamente “endireitado” seguindo a cartilha determinada na linha editorial.
Não vejo muitos problemas em exercerem uma linha parcial, desde que a publicação seja reconhecida como tal. As publicações à esquerda também apresentam falhas parecidas. Apesar do editorial “torto”, penso que Veja exerce um papel interessante em dois sentidos: lança questionamentos que nem sempre a imprensa costuma fazer (como exemplo as dúvidas sobre o tratamento dado ao tema preservação ambiental). O outro aspecto é o efeito das suas reportagem investigativas. Grandes escândalos da república são majoritariamente expostos inicialmente em suas matérias. O foco sobre o fisiologismo e outras formas de corrupção do PMDB tem valor inestimável para a saúde política do país (entrevista com Jarbas Vasconcelos foi sensacional).
O grande pecado da revista ? Não se esforça em explorar o outro lado da moeda. Vide o caso Daniel Dantas. O foco é o Protógenes (que fez um monte de lambanças) e parece ter esquecido completamente do banqueiro (olho azul?). Outra impressão que tenho é que ela tem aliviado o Lula, mantendo arsenal sobre o PT. Isso parece ser conveniente quando as pesquisas de opinião blindam cada vez mais o presidente.
Concluindo, acho que a revista tem muito a oferecer ao leitor, desde que lida com muito pé atrás. Esse editorial sobre a Daslu, por exemplo, não teria como ser pior.