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Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
  

Por que a seleção brasileira não encanta mais?

02/04/2009 - 22:53 - por Raphael Perret
Careca, jogador da seleção brasileira entre 1982 e 1994

Careca, jogador de uma época em que
valia a pena ver o Brasil em campo

Há vários motivos possíveis pra isso, mas não vou enumerá-los. Se quiser citá-los, fique à vontade. Eu vou ficar num só: não dá pra torcer por um time formado pelos jogadores que estão nela.

Não estou questionando a qualidade dos convocados por Dunga – e, antes por Carlos Alberto Parreira. Estou falando de empatia, de identificação. Antigamente, os jogadores surgiam e ficavam mais tempo aqui no Brasil. Despertavam paixão nos torcedores e ódio nos rivais. Ou seja, despertavam alguma coisa. Eu, por exemplo, sempre gostava de torcer pelo sucesso dos jogadores do Flamengo na Seleção. Lembro que, quando Bebeto foi convocado pela primeira vez, lá pelos idos de 1987, 1988, fiquei feliz e acompanhava até amistoso contra a Tailândia de madrugada. Tenho certeza que meus companheiros de geração faziam o mesmo. Quando o atleta vinha do time rival – como Romário – restava-me aceitar a justiça de sua convocação.

O problema não era nem os jogadores estarem fora do Brasil. Há muito tempo é regra a migração dos melhores atletas em atividade para a Europa. Apesar do fiasco da Copa de 1990, a torcida assistia com ardor às partidas da seleção, mesmo com mais da metade dos convocados já atuarem no exterior. A diferença para hoje é que eles criaram raízes no Brasil e eram conhecidos até dos torcedores de ocasião, que só vestem camisa nos Mundiais.

Vejamos o time-base da pior Copa de todos os tempos. O Brasil tinha seu melhor goleiro, ídolo do Internacional (Taffarel). Um lateral-direito que brilhou no Flamengo (Jorginho). Dois jogadores que atuaram na defesa do Fluminense tricampeão carioca 83-84-85 e campeão brasileiro (Ricardo Gomes e Branco). Um zagueiro que foi o capitão do inesquecível título do Botafogo em 1989 (Mauro Galvão). Na frente, uma dupla que fez história no  São Paulo, sendo que um dos dois era o melhor centroavante brasileiro da época (Careca e Müller). Dos sete citados, só dois ainda jogavam no Brasil (Taffarel e Mauro Galvão).

Vejamos um exemplo mais recente e de um time vencedor: o pentacampeão de 2002. No gol, o eterno palmeirense Marcos. Cafu foi essencial em títulos do São Paulo e do Palmeiras. Roberto Carlos e Rivaldo conquistaram muitos fãs no futebol paulista. E, para compensar a pouca identificação dos demais titulares, jogadores acima de qualquer suspeita. Ronaldo estava em fase excepcional e justificava o apelido de fenômeno, enquanto de Ronaldinho Gaúcho pouco se esperava, pois ainda era uma promessa de qualidade.

E atualmente, o que temos? Daniel Alves saiu do Bahia com 19 anos pra fazer carreira no Sevilha. Marcelo apareceu bem no Brasileiro de 2006 e deixou o Fluminense antes do fim do campeonato. Elano foi importante no Santos, mas jamais despertou qualquer sentimento em torcedores rivais. Felipe Melo, no Flamengo ou no Cruzeiro, foi medíocre. Ronaldinho Gaúcho nunca foi genial na seleção e teve um vínculo conturbado com o Grêmio. Robinho também não se acerta, e sua máscara está transformando a adoração em desconfiança. Temos apenas Julio Cesar, ídolo rubro-negro, Luis Fabiano, que atuou por muitos anos no São Paulo, e Kaká, de qualidade indiscutível.

O que a seleção oferece hoje de jogadores é muito pouco para criar laços de identificação com o brasileiro. Não basta ao convocado vestir a amarelinha. É preciso dar alegrias pelos clubes, paixão suprema do torcedor. Ou, então, ser genial, o que tem sido cada vez mais raro.

Acompanhar o Brasil é como um longo vício que já não causa tanto prazer mas também não se perde. Eu só torço porque estou acostumado.


5 já comentaram “Por que a seleção brasileira não encanta mais?”

  1. Perfeito. À medida que o tempo passa e os jogadores vão indo embora do país cada vez mais cedo, os torcedores realmente perdem a identificação com a Seleção por causa do pouco vínculo com os nossos clubes – nesta Seleção que disputou as mais recentes rodadas das Eliminatórias, apenas dois dos 22 jogadores convocados atuavam em clubes brasileiros.

    Além disso, nossa comissão técnica não demonstra interesse algum em ver o futebol jogado por aqui. Só vê os nossos jogadores que estão lá fora. Não duvido nada que no ano que vem todos os 23 convocados sejam “europeus”, o que nunca aconteceu com o Brasil em Copas do Mundo – em 2006, apenas três jogadores (o goleiro Rogério Ceni e o volante Mineiro, do São Paulo, e o meia Ricardinho, do Corinthians) atuavam no futebol brasileiro.

     

  2. Gustavo Veronese

    Além disso tudo, há um agravante para torcedores do Rio de Janeiro. Faz tempo que não vejo um jogador identificado com o Vasco jogando na seleção. Não precisa estar jogando no time, mas que tenha tido alguma identificação com time. O último do Vasco foi Juninho Pernambucano, que parou de jogar com a canarinha em 2006. Tudo bem que não nasceu em São Januário, mas foi ídolo lá.
    Do Flamengo hoje tem o Julio Cesar e o Adriano. Mas não vejo muito torcedor flamenguista empolagado com esse último. Fluminense teria o Tiago Silva, mas o Dunga não convocou… Enfim, são poucos os nomes. Cada vez menos ídolos cariocas se projetam. O dinheiro não mingua só no Brasil, o Rio perdeu muito ao longo dos últimos anos e isso se reflete também no futebol. Em São Paulo, onde há mais dinheiro, tem mais jogadores de nível e mais títulos brasileiros também.

     
  3. perfeito. vc sintetizou algo q penso há tempos. esta selecao sem alma é fruto de um grupo sem identidade.

     
  4. Estamos fadados, doravante, a torcer pelos times do exterior. Só assim assistiremos aos jogos da “nossa” verdadeira Série A. Pois, espalhados pelos quatro continentes, encontram-se tais jogadores, que, se aqui estivessem, seriam os detentores da titularidade em seus clubes, e os atuais jogadores, obviamente, passariam a representar a Série B e assim sucessivamente.
    Hoje o “sonho” de todo atleta, de qualquer modalidade esportiva, é fazer parte de uma equipe internacional. Motivações econômicas, sociais e culturais não faltam, e influenciam para que a luta, por tal espaço, seja ferrenha.
    Enquanto isso… nós vamos perdendo nossos heróis e nossa memória. Pois se perguntarmos em qual time Pelé, Garrincha, Didi, Zagalo e tantos outros, jogavam quando foram campeões mundiais em 1958 e 1962, muitos saberão responder. Porém, se indagarmos sobre fatos recentes, provavelmente, “nossos” heróis não terão uma “pátria futebolística” para serem referendados, salvo dois ou três heroicos goleiros.
    Assim, presenciamos aqui: técnicos desesperados, repórter atrevido, comentando: “o jogo foi difícil… difícil de assistir”… e jogadas egoístas “atabalhoadas, totalmente sem noção”, em detrimento do melhor passe, da maior probabilidade de êxito da equipe. Pois se tal “lance lotérico”, desse aventureiro, resultar em sucesso inesperado, seu passe cresce alguns milhões de dólares.
    Cabe aos nossos dirigentes analisarem em qual ponto o processo está falhando. Pois se lá fora o investimento dá retorno, então por que vendemos os nossos “galos das chuteiras de ouro”?…
    Ou será que há algo incomum ou “em comum” nessas barganhas?

     

  5. Arthur Muhlenberg

    Sem duvida, esse é um dos principais fatores. Mas rola tambem uma desnacionalização violenta, ninguem mais quer saber dessa parada de pátria.

     


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