Milhares de pessoas em homenagem a 96 mortos revelam diferenças culturais entre Inglaterra e Brasil
Mais uma vez descubro que 1989 foi muito mais marcante do que eu já achava. Há vinte anos, 96 torcedores do Liverpool morreram no estádio Hillsborough, onde ocorreria uma partida semifinal da Copa da Inglaterra entre o time da terra dos Beatles e o Nottingham Forest. O motivo foi a superlotação do estádio. O episódio serviu para o governo britânico tomar providências para evitar novas tragédias em um país apaixonado por futebol.
(No Brasil devem estar esperando um acidente de proporções semelhantes para fazer igual. Mas isso é outra história…)
Hoje, o Anfield Stadium, arena do Liverpool, estava LOTADO em uma cerimônia que lembrou os vinte anos da morte dos 96 torcedores. O clube mantém no estádio um memorial com o nome das vítimas. Flores e camisas estavam penduradas em frente ao local, colocadas por torcedores do Liverpool. As fotos são arrepiantes.
A comoção da torcida, vinte anos depois, formada certamente por jovens e crianças, é algo impressionante. Não consigo imaginar reverência similar aqui no Brasil. Suponho que por dois motivos: a banalização da violência e o desrespeito ao passado.
O episódio da Fonte Nova, em 2007, foi a maior tragédia ocorrida no futebol brasileiro, com sete mortos. Em 1992, na decisão do Brasileiro, 3 torcedores do Flamengo morreram ao cair da arquibancada do Maracanã. Alguém recorda de esses fatos terem sido rememorados, anos depois? Foram homenageados torcedores que, prestigiando seus times, morreram por incompetência de administradores de estádios?
Essa falta de atitude revela a anestesia aplicada pela violência cada vez mais reinante no futebol, temperada pelo individualismo exacerbado dos nossos tempos. Morrer indo ao estádio quase não causa mais surpresa ou estupor. É uma consequência direta. Extrema, mas plausível.
Mas não é só a selvageria que transforma em sonho impossível no Brasil o que ocorreu hoje em Liverpool. Aqui, temos somos – justamente – conhecidos por esquecermos a nossa história. No futebol é emblemático. Os jogadores da atual seleção brasileira, por exemplo, não sabem o nome de nenhum campeão mundial de 1958.
Na sociedade atual, ídolos são fabricados semanalmente e qualquer jogo é alçado à condição de “espetáculo”. Essa falta de senso crítico nos afasta da trajetória dos clubes e do futebol como um todo, patrimônio cultural brasileiro. Foram os jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores de ontem que construíram a fortaleza dos times por que vibramos hoje.
É bem verdade que, recentemente, uma onda nostálgica tem abençoado as torcidas, com bandeiras homenageando ídolos de passado remoto, e até mesmo as fabricantes dos uniformes, apostando no filão passional e investindo em camisas “retrô”. Porém, quando vejo jogadores passando necessidades, tenho a certeza de que o Brasil está distante de ser uma nação que homenageia e reverencia seus ídolos, personagens e heróis.
Falamos tanto da frieza do inglês e da paixão do brasileiro, mas hoje os torcedores do Liverpool mostraram que os britânicos têm respeito pela sua história e coragem para recordar seus piores momentos. Atributos raros no lado de cá do Atlântico.


00:09
(No Brasil devem estar esperando um acidente de proporções semelhantes para fazer igual. Mas isso é outra história…)
Pois é. Penso exatamente a mesma coisa.