Sobre ler e escrever
Este período de poucos textos não se justifica só pela falta de tempo. O motivo da seca é outro. E tem muito a ver com uma twittada do David F. Mendes, feita em janeiro.
Por que é que tem tanta gente que não lê e se mete a escrever? Porque fazem merda e não a reconhecem como tal. Não tem nariz.
Não, não vesti a carapuça. Apenas concordo com ele. Embora eu não verbalizasse desta forma, ele conseguiu ser preciso: como alguém pode querer escrever bem se lê tão pouco?
Uma frase antiga – cujo autor não lembro agora, se alguém souber, avise! – diz que um bom escritor lê bem mais do que escreve. Compreendi, nos últimos dias, o significado deste aforismo na prática.
Fiquei sem escrever exatamente no momento em que fiquei sem ler. Atarefado no trabalho e em casa, deixei de lado minhas leituras informativas, opinativas, ficcionais, não-ficcionais, analíticas. O veículo que mais consultei nos últimos dias foi o Twitter. Assumamos que um microtexto de 140 caracteres é um material limitado, principalmente se não há possibilidade de aprofundá-los via conversação.
Neste período, não poderia escrever sobre meu dia a dia. Ele não é diferente da rotina de muita gente. E se o objetivo do Butuca Ligada é trazer informações sob ângulos criativos, capazes de contribuir, humildemente, para uma vida mais legal, falar do meu cotidiano vai ajudar somente os insones.
É óbvio que não descobri só agora o gosto pela leitura. Foi devorando jornais e revistas, quando criança, que decidi ser jornalista. Foram os livros que me estimularam a buscar escrever cada vez melhor. Também não é a primeira vez que sinto falta das minhas leituras. No meio das minhas duas faculdades simultâneas, do mestrado e dos estudos para concursos, algumas obras se tornaram compulsórias. E não eram, em sua maioria, textos que mudaram a minha vida.
O ponto crucial é ter percebido que, sem ler, o trabalho deste jornalista, blogueiro e “produtor-de-conteúdo-em-redes-sociais” perde muito em qualidade. Compreendi, enfim, de modo cristalino, os diversos significados da leitura e sua importância para a escrita.
Ler forma uma opinião. Todas as informações que você apreende de uma leitura – nomes, datas, locais, histórias, análises, descobertas, conquistas, perdas, experiências – entram em sua mente, comunicam-se entre si e, de repente, geram insights, ideias, pensamentos. E, assim nasce uma opinião. Uma entre bilhões, é verdade, mas uma opinião embasada pelo conhecimento obtido através da leitura.
Ler exerce a criatividade. Conceber na mente a França do século 19 de Madame Bovary ou a urbe do futuro de 1984 estimula a fantasia e a imaginação, além de facilitar a criação de metáforas.
Ler define um estilo. Quanto maior a variedade de livros que você lê, mais contato você tem com construções de frases e períodos. O seu jeito de escrever passa a beber em fontes diferentes, ganha corpo e torna-se um estilo de texto próprio.
Ler amplia o vocabulário. Você tem mais contato com novas palavras e expressões diferentes. Riqueza vocabular é condição necessária para um texto atraente e simpático.
Ler aguça o humor. Até as narrativas angustiantes, tristes e pesadas costumam trazer passagens cômicas ou sarcásticas. Usar um estilo de humor adequado é sempre um tempero saboroso para o seu texto.
Mas o hábito da leitura não traz consequências diretas exclusivamente para quem escreve. Pelo menos duas delas são fundamentais nesta época em que a gente vive.
Ler ocupa a mente. Já viram o filme O Leitor? Não é um filmaço, apesar da indicação ao Oscar. Mas retrata, em grau máximo, como a leitura pode ser o suporte da vida de uma pessoa, mesmo nas condições contrárias mais extremas possíveis (sem liberdade e sem a capacidade inicial de ler). Lembre-se, ainda, do personagem John, do livro Admirável Mundo Novo. Alguém tem dúvidas dos benefícios que poderia trazer a leitura para ociosos, fofoqueiros e assinantes do pay-per-view do Big Brother?
Ler estimula o senso crítico. Quem tem o hábito da leitura já consegue discernir o tipo de texto, o estilo de redação e os assuntos mais prazerosos e os mais incômodos. Isto é senso crítico. Ter acesso a uma variedade de informações – ficcionais ou reais, informativas ou opinativas, não importa – ajuda na orientação sobre o que é bom e ruim. Claro que esta consciência depende, também, da formação do indivíduo, delimitadora de seus valores e de suas prioridades – e mesmo estes são influenciáveis pela leitura. E, puxa, como seria bom se as pessoas tivessem um senso crítico mais apurado, neste mundo repleto de picaretas e carente de afetos…
Por tudo isso, ler é uma atividade precípua para quem pratica o exercício da escrita regularmente. Não vou mais abandonar meus livros (e blogs, jornais, revistas etc.). Quero sempre ler e, assim, ter material para debater, ideias para discutir e propostas para apresentar. Logo, se eu ficar dias sem postar, não digam “Escreva!”, e sim “Leia!”.
E vocês, também. Leiam, sempre.


14:51
Gostei muito do seu post, Raphael, transmitiu de forma leve, clara e didática os benefícios da leitura. Parabéns!
10:37
Perret,
Continue LENDO! Assim, a gente vai continuar tendo a oportunidade de LER textos como esse!!!
10:11
Muito bem, estou de acordo, mas,
depende do que se lê.
13:43
Ler cria amizade. Sinto-me totalmente amiga de Capitu, Pollyana, etc. Atualmente estou lendo “Il giornalino di Gian Burrasca” e fiquei tão amiga de Giannino, o personagem principal, que será o nome do meu próximo bichinho de pelúcia.
01:48
É, Raphael, vou procurar alguma coisa para ler correndo…
09:55
Adriana e Dagner, obrigado!
jack, concordo, mas você só cria o senso crítico depois que lê muito, e é isso que precisa ser estimulado.
Elisa, gostei do seu ponto de vista. Os personagens trazem características que nos ajudam a definir o que queremos de amigos e de pessoas em volta.
E, Rodrigo, espero ter ajudado
21:23
Trackback
[...] Pensei e encontrei dois motivos, um particular e um público. O particular é a redução vertiginosa da grandeza “tempo” no meu dia a dia. Quando sobram alguns minutos para a leitura, prefiro dedicá-la aos livros, pois, como vocês sabem, estou em débito com a literatura. [...]