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Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
  

Eu não leio mais jornais

07/06/2009 - 21:22 - por Raphael Perret

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Jornais no Irã. Foto: birdfarm

Jornais no Irã. Foto: birdfarm

No sábado, travei o seguinte diálogo com meu amigo Gustavo Veronese:

Gustavo: Perreco

tudo beleza?

me: beleza, e aí?

Gustavo: Aí

dá uma olhada na página 4 do Globo, na coluna do Merval e vê a chamada da coluna dele (não sei se é assim que vocês chamam a introdução da coluna)

Vê o que você acha.

me: pô, não tenho o Globo %-)

Gustavo: tu só lê o JB ?

me: não, não leio jornal :-)

só online e o Globo de sexta, quando compro pra ver a boa do fim de semana

O papo prosseguiu, por outro caminho. Mas eu fiquei encasquetado com essa novidade: eu não leio mais jornais. A conclusão me levou a fazer um revival da minha relação com os impressos.

Na faculdade de jornalismo, ouvia nas minhas melhores aulas que jornalista tem que estar bem informado e ler jornal. Seguir a orientação nunca foi muito difícil, mesmo antes de passar no vestibular. Quando eu morava com os meus pais, lia em casa porque minha mãe sempre assinava o Globo. Durante a faculdade, cheguei a assinar a Folha e o JB. Ao sair de casa e ver as despesas aumentarem, nunca mais assinei nada. Porém, ainda curtia ler os jornais no meu trabalho antigo. Como agora não tenho jornais à minha disposição na minha sala atual, a preguiça e avareza superam a minha vontade em me informar pelos tradicionais diários impressos.

Já faz, portanto, quase um ano que ler jornais deixou de ser um hábito diário. Mas escrever isso na conversa com o Gustavo me fez encarar a verdade. Uma verdade que se contrapõe ao que aprendi na sala de aula. Afinal, como jornalista, é preciso saber um pouco de tudo para errar o mínimo possível na hora de transmitir uma informação. Mas esta necessidade não mudou. Então, por que então abro mão dos jornais?

Pensei e encontrei dois motivos, um particular e um público. O particular é a redução vertiginosa da grandeza “tempo” no meu dia a dia. Quando sobram alguns minutos para a leitura, prefiro dedicá-la aos livros, pois, como vocês sabem, estou em débito com a literatura.

O público é notório. A internet nos expõe a milhares de fontes de informação diferentes. Não tenho acesso somente ao que a imprensa noticia, mas também às opiniões e informações vindas de quem nunca ou raramente teve espaço na mídia. Além disso, milhares de veículos informativos gratuitos proliferam na rede, inclusive internacionais. E na rede que eu mantenho, via internet ou fora dela, consigo me manter informado sobre os assuntos que mais me interessam, lúdica ou profissionalmente. Afinal, meus amigos, colegas e contatos são meus amigos, colegas e contatos porque se interessam pelas mesmas coisas que eu. Mesmo nessa entropia enlouquecedora em que vivemos, é mais ou menos o que fala o Cris Dias: “se alguma informação, notícia, tendência, etc. é realmente importante ela acaba voltando” (não penso 100% igual, mas concordo mais do que discordo). Logo, deixar de ler jornais não me deixou mais mal informado. Se bobear, ocorre o contrário.

Portanto, acho que é hora de abandonar o sentimento de culpa. E de rever meus conceitos sobre as previsões do tipo “os jornais vão acabar”, embora eu ainda não concorde com elas. Acompanho a grande mídia, mas é inegável que ela deve se reinventar para anular ou diminuir os prejuízos recentes. Aceitar o avanço tecnológico é uma providência fundamental e já atrasada. Se o veículo ignora a participação do leitor, minimiza a formação de seus profissionais e despreza critérios de qualidade básicos, é porque busca o suicídio. Afinal, com internet ou não, a sociedade está cada vez mais exigente com o compromisso público da imprensa com a democracia e a pluralidade.

Agora, é possível que o fim do jornal de papel seja um destino mais realista. Já que caminhamos para um acesso cada vez mais amplo à web, os próprios veículos prefiram manter-se só na internet. Na web, a manutenção é mais barata e os recursos multimídia enriquecem a transmissão da informação. A conscientização ecológica também vai contribuir para a redução do papel. O que desacelera a força que empurra as rotativas à aposentadoria é o já  tradicional gargalo: como aumentar a receita com o veículo online? Propaganda? Conteúdo pago? Micropagamento?

O desaparecimento do jornal de papel não vai representar o fim da grande mídia. Poderá ser um símbolo, sim, de uma nova era da informação. Mas os grandes veículos de comunicação podem dançar, caso não consigam se adequar aos novos tempos. Ao que parece, estão atrasados.

Com a internet, há espaço para todos. Inclusive para os jornais.

8 já comentaram “Eu não leio mais jornais”

  1. Eu, sinceramente, torço para que os jornais de papel nunca morram, porque embora a web traga inúmeras vantagens, a leitura na tela por tempo prolongado continua sendo algo cansativo, não só para os olhos mas também para o corpo. Eu mesmo não tenho mais paciência para passar duas ou três horas lendo um site de notícias e a partir daí começar a sentir dor nas costas.

    Ainda insisto na assinatura do Estadão, embora eu saiba que meu tempo anda cada vez mais curto, principalmente agora que estou escrevendo um livro. Mesmo assim, prefiro o papel, por tornar a leitura mais confortável, apesar de ser um pouco estranho reler algo que fiquei sabendo no dia anterior.

    Só em casos de assuntos específicos é que APENAS recorro à web, como no caso do noticiário relacionado à Fórmula-1. Nisso, os bons blogs e o site da Autosport (inglesa) são imbatíveis (sim, nesse quesito eu desprezo os portais brasileiros, que copiam e traduzem tudo da Autosport).

     
  2. O detalhe importante é que os jornais – e aí os trato mais como títulos, representações, do que como sua expressão física em papel – continuarão funcionando, em algum nível, como referência. Os grandes exemplos nem sempre são muito bons para o geral, mas tomemos o caso do acidente com o AF447. Alguém levaria muito a sério um colega que dissesse: “li num blog que já acharam dois corpos”? Claro, se VOCÊ leu num blog em que VOCÊ confia, tudo bem. Mas levaria a sério a “informação” do amigo do amigo que leu num blog? Agora, se ele dissesse “li no Globo”, “li na Folha”, “li no Figaro”, “li no NYT”, a reação seria um pouco diferente. Pois então, neste momento, acho que a principal providência a ser tomada pelos jornalões é defender sua marca, sua credibilidade, pois é isso que restará de mais valioso. Como bem sabemos, nem todos têm se saído muito bem nessa missão…

     

  3. Raphael Perret

    RC, concordo. E é por isso que ainda acompanho a grande mídia. É ela quem dispõe de recursos para investigar assuntos aos quais os blogueiros ainda não têm acesso, por uma série de circunstâncias. E acho que continuará assim por um bom tempo. Haverá blogueiros que cobrirão certos assuntos (grandes eventos ou temas mais locais), haverá blogueiros que farão análises e darão opiniões (a maioria, aliás), e haverá veículos de comunicação que trarão as informações de onde é mais difícil que pessoas físicas alcancem.

    Sinceramente? Torço para que esses jornais, que já foram tão importantes em determinados momentos da história, consigam entrar nos trilhos e acompanhar a evolução da sociedade.

     
  4. Bom post.
    Um dia desses eu estava me perguntando quanto tempo eu não desfolho uma revista e jornal. Quanto tempo eu não escrevo no papel, apenas digito ou clico. A ultima vez que eu lembro que li um jornal impresso minha mente estava tão viciada em atualidades que fiquei por alguns segundos procurando a tecla F5 no Jornal :) pra saber se a noticia que eu estava lendo tinha atualizações :D – sei que é loucura mas aconteceu.

    E digo mais – se os famosos E-Reader (Kindle da Amazon) realmente emplacarem será o fim de muitos jornais e revistas impressos e o nascimento de outros jornais e revistas digitais e com tecla de atualização :D .

     
  5. Pois é, Perret. Mas precisamos de mais cuidado do tratamento da informação online: ontem mesmo, numa matéria veiculada em O Globo On, havia um “poça” como flexão do verbo “poder”. Aí é demais pros olhos. Ficou claro que passou pelo corretor ortográfico porque a palavra “poça” existe!

     
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