Dicas literárias: “Vidas secas”, “A revolução dos bichos” e Skoob
Terminei duas obras famosíssimas e que me despertaram insights e me deixaram incômodos.
(1) Me interessei em ler algo de Graciliano Ramos depois que fui a um debate sobre literatura e cinema no Cine PE em maio. Um dos temas foi a adaptação de livros para a telona, e em determinado momento o escritor José Roberto Torero comparou Graciliano Ramos (“direto, seco”) com Guimarães Rosa (“com suas ‘viagens’ maravilhosas”) e com Clarice Lispector (que “gastava páginas e páginas para falar de uma barata”). Como Clarice já conheço um pouco e tá difícil de achar a obra-prima de Guimarães Rosa, investi no Vidas secas que descansava, empertigado, na estante aqui em casa.
O livro traz episódios da vida de uma família de retirantes nordestinos que fogem da seca e da miséria. Cada capítulo é um conto, de certa forma, isolado dos outros, com início, meio e fim, mas, como diz a orelha da minha edição, “de tal forma solidários que só no contexto adquirem sentido pleno”. A narrativa, do tipo onisciente, é rica em detalhes sobre as sensações dos personagens, inclusive da cadela Baleia, e ajuda muito a entender angústias de quem vive numa pobreza que limita desejos e horizontes. Fiquei encantado com a forma com que o texto ilustra a dificuldade de Fabiano, o pai da família, em argumentar e discutir por conta de sua pouca instrução: ele sabe o que sente, mas não consegue verbalizar. E a frase “apanhar do governo não é desfeita”, proferida pelo próprio Fabiano, sintetiza, com fortes tintas, a resignação que assola a muitos diante de atrocidades cometidas pelo poder público.
Ah, e se o estilo de Graciliano Ramos é “direto,seco”? Depende do ponto de vista. É subjetivo na medida em que penetra na mente dos personagens. Mas é objetivo ao ilustrar o que se passa na cabeça de Fabiano, Sinhá Vitória e de seus dois filhos e de Baleia. Só sei que funciona muito bem.
(2) Passando por um sebo em Botafogo, comprei A revolução dos bichos, que eu já desejava ler desde a adolescência. O texto objetivo e o tamanho do livro me ajudaram a devorar a obra de George Orwell em menos de dois dias. Na fábula, os animais de uma fazenda se insurgem contra seu dono humano e passam a administrar os negócios da casa. Os porcos, mais inteligentes que os demais bichos, assumem a liderança da “República” e, em nome da igualdade, liberdade etc., impõem um regime autoritário, com práticas que vão da rígida disciplina à manipulação da informação. No fim, perguntam-se os animais, o mundo ficou mesmo melhor, como dizem os leitões governantes?
A revolução dos bichos é um ensaio para o livro mais famoso de George Orwell, 1984, em que o autor destila todo o seu temor sobre uma sociedade em que a informação é rigorosamente controlada, o que inclui reescrever a História (sim, com H maiúsculo: História, passado, fatos já ocorridos). Se, em 1984, esta dinâmica é aprofundada com descrições meticulosas, em A revolução dos bichos a narrativa é mais direta (às vezes até demais), e a escolha pela fábula facilita a compreensão da mensagem: mais do que o bélico ou o administrativo, é o material informativo o mais valioso dentre todos aqueles controlados por um poder autoritário. Enfim, gostei mais de A revolução… do que de 1984, sobre o qual já havia opinado rapidamente.
(3) Nem pensava em escrever este item 3, mas é inevitável. Embora os temas dos dois livros sejam diferentes, ficou claro que Vidas secas e A revolução dos bichos têm uma característica comum: expor os obstáculos à participação de quem não teve acesso à educação. E, em graus diferentes, as duas obras denunciam a exploração, pelos governantes, desta incapacidade comunicativa.
(4) Para encerrar, uma dica internética. Entrei no Skoob, rede social brasileira cujo fio condutor é a experiência com os livros. Você se cadastra e monta a sua “estante”, com os livros que já leu, está lendo, pretende ler ou deixou de ler no meio. Por meio destas preferências, você pode encontrar amigos que têm gostos semelhantes, além de poder opinar sobre as obras e trocar ou emprestar livros.



23:59
Li A Revolução dos Bichos na infância, por isso não me dei conta do que o livro criticava. Pretendo lê-lo novamente assim que tê-lo em mãos. Já 1984 eu usei como tema da minha monografia, que falava dos temores de uma época pós-guerra, em que a paranoia era grande e resultava de grandes traumas – esses temores acabariam se concretizando, de uma forma ou outra.
Leio menos do que gostaria, confesso. Comecei a ler Lolita, de Nabokov, parei no meio e só recomecei anos depois. Comprei uma edição de bolso de Macbeth, de Shakespeare, e não pretendo demorar tanto pra concluir a leitura.
Assim que tiver mais tempo e condições, pretendo investir na leitura de biografias de figuras históricas e livros que ajudem a explicar e entender o mundo que estamos vivendo hoje.
19:57
eu não leio muito,mas pretendo,apartir do momento que entrar em uma faculdade ou universidade,para estudar muito ser uma pesooa inteligentíssima!!!
19:21
Acho revolução dos bichos uma merda. Uma metáfora, ridículamente escrita. Vc mesmo falou que é direta demais. Pois é isso mesmo!
19:22
metáfora rasa, quis dizer