Segunda-feira tem boicote ao metrô. Falta agora um aos ônibus, trens e barcas
Foto: Flickr de Ranieri Ribeiro
Sábado, 28, novela das seis, Cama de Gato. O personagem de Marcos Palmeira vê um rapaz surdo atravessando a rua, distraído, prestes a ser atropelado por um ônibus. Intrépido, nosso herói corre, se atira sobre o garoto e o salva da tragédia. O ônibus freia e, ligeiramente, o motorista sai do coletivo correndo, preocupado com o menino (veja a cena).
As cores do veículo e a linha do ônibus (571, Glória-Leblon) não deixavam dúvidas: o episódio é no Rio de Janeiro. O que torna a situação extremamente improvável. Na boa, você, amigo(a) carioca, consegue imaginar um motorista de ônibus, no Rio, prestativo e aflito com um garoto que ele quase atropelou? Na melhor das hipóteses, o condutor partiria em disparada. Digo melhor porque, infelizmente, o mais crível mesmo seria o motorista gritar um “Ô FILHO DA P**A, NÃO VÊ POR ONDE ANDA, NÃO?”. Isso no mínimo, é claro. Ou alguém duvida?
Os ônibus cariocas são tristes. Ou melhor, todo o sistema de transporte rodoviário da cidade. A distribuição das linhas é totalmente equivocada, deixando veículos vazios em ruas entupidas de coletivos, em contraponto com duas ou três únicas opções de ônibus em alguns bairros e que andam sempre lotados. Os motoristas são extremamente indelicados e mal treinados, os veículos caem aos pedaços e as infrações de trânsito são numerosas. E, mesmo com todas essas qualidades de primeiro mundo, as empresas de ônibus correm o risco de, involuntariamente, lucrarem um pouco mais nesta segunda-feira, quando está previsto um boicote ao metrô do Rio de Janeiro.
Já circula há poucos dias na internet uma convocação para este protesto. Quem a leu e usa o metrô entendeu automaticamente as razões. Afinal, faz semanas que os trens demoram mais que o habitual, param no meio do caminho durante minutos e circulam bem mais cheios, com problemas no ar condicionado. E olha que uso o metrô no trecho mais “tranquilo” (Centro – Zona Sul). Tenho até medo de imaginar a situação de quem usa a Linha 1 no trajeto Centro-Zona Norte e, pior, a Linha 2, tradicionalmente tratada como curral de gado, a quem são destinados trens menores e atrasos maiores.
Acho o boicote uma boa ideia. Se o objetivo é reclamar dos serviços de uma empresa, sou a favor de qualquer protesto pacífico e massivo que gere prejuízo à companhia, mesmo que este afete apenas 1/30 do faturamento mensal. Entretanto, lamento que a iniciativa favoreça os ônibus, que serão com certeza a primeira alternativa de quem aderir ao protesto amanhã. Aposto também que muitos deixarão de participar exatamente porque a outra opção são os coletivos rodoviários.
O metrô do Rio ainda é MUITO melhor que os ônibus, e eu teria mais prazer em fazer parte de um protesto contra os veículos de superfície. Mas como cidadãos precisamos exigir mais respeito, sim, do metrô. E não falo somente por causa do serviço ruim, mas também da comunicação totalmente equivocada da empresa.
Há semanas vejo muitas pessoas se queixarem, a imprensa cobrir essas manifestações, o Twitter (onde a empresa tem perfil) bombar em reclamações… E o que o Metrô faz? Solta um comunicado ambíguo, em que põe a culpa nos governos anteriores e divulga os investimentos na abertura de estações e na compra de trens, que vão melhorar a vida de milhões de passageiros, piriri pororó. Acontece que as pessoas não acham que o serviço sempre foi ruim, e sim que ele piorou de uns tempos pra cá. E o texto não traz nenhuma justificativa para o agravamento, tampouco um pedido de desculpas. O teor do comunicado se repete em anúncio pago no Globo de hoje. Ora, Metrô, desfaçatez, além de irritar o cidadão, é motivo de sobra para qualquer protesto.
Mas a verdade é que, no sistema de transportes do Rio, tá tudo dominado. Do metrô e dos ônibus posso falar por experiência própria. Não posso comentar os outros veículos, mas acho que nem preciso, né? É notório que passageiro de trem corre risco de levar chicotada, assim como o serviço das barcas Ri0-Niterói deve ser ruim o bastante para enfurecer passageiros e promover um quebra-quebra na estação da Praça 15. Pergunto se a comissão do Comitê Olímpico Internacional que visitou a cidade utilizou algum transporte público.
Torço para que o boicote desta segunda tenha adesões suficientes para causar calafrios nos executivos do Metrô Rio. Mas todos poderíamos pensar em protesto contra os maus serviços dos ônibus, trens e barcas do Rio de Janeiro. O problema é que o grau de dependência da população é tão alto que fica impraticável deixar de usá-los por um dia que seja. Mesmo assim, acredito que uma módica dose de sacrifício individual pode gerar um “MELHORA ISSO AÊ” coletivo, ruidoso e eloquente para as empresas que cuidam do transporte público carioca. Também podemos pensar em outras formas de protesto, para além do boicote.
Mas quais?




01:34
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[...] This post was mentioned on Twitter by Roney Belhassof and Cristiano Santos, Raphael Perret. Raphael Perret said: Amanhã tem boicote ao metrô do Rio. Justíssimo. Que tal organizarmos, agora, um aos ônibus, trens e barcas? >> http://migre.me/cSCh [...]
09:14
Difícil.
Lembre-se: a maioria dos usuários de ônibus teria dificuldades em se mobilizar via internet. Fora que pra muita gente NÃO EXISTE outra opção. Com o metrô a coisa é realmente mais fácil.
Concordo 110% com o post. Morando em outra cidade, nem sabia do caso.
09:54
Engraçado: não recebi notificação desse post por e-mail… e temo que tenha perdido outros também!
Em relação a esse, especificamente, prefiro não comentar: você sabe extamente o que penso acerca dos serviços públicos (prestados diretamente ou por concessão) no Brasil!
09:54
Ah! Aquela careta devia ser essa:
09:55
Hmmmm! Esquisito! Pra mim, essa língua de fora tá mais com cara de boca aberta!
21:36
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[...] Já tratei deste problema há quase um mês, quando foi proposto um boicote ao metrô. As razões da queda da qualidade permanecem obscuras. O Metrô, ao menos, assume que opera “no limite”. Mas vou lançar uma hipótese aqui. A descrição dela vai ser simples; sua existência, porém, é complexa. [...]