O problema não é o metrô, é tudo!
Com o perdão do termo, hoje foi foda.
Cheguei na estação Carioca do metrô mais ou menos às 18:10 e metade das roletas estavam interditadas. Obviamente, filas gigantescas se formavam nas catracas restantes. Era uma medida dos operadores para evitar que a plataforma ficasse lotada. O alto-falante, numa potência de noite metaleira do Rock in Rio, informava que uma composição avariada na estação Flamengo causava irregularidade nos intervalos. De fato, meu trem, sentido zona sul, demorou bem mais que o normal, assim como estava mais cheio do que de costume.
Ao passar pela estação do Catete, notei que as plataformas no sentido contrário (zona norte) estavam abarrotadas, chegando ao ápice da lotação no Largo do Machado, parada seguinte. O mais bizarro foi ouvir uma gritaria e perceber que ela vinha de um trem que saía lentamente da estação, no sentido zona norte, todo escuro e com gente dentro (?!?!). Pra completar o surrealismo do momento, o alto-falante do meu trem ecoava um homem gritando, em certo tom de desespero, “SIGILO! SIGILO!”.
Em Botafogo, meu destino, a situação da Carioca se repetia e filas enormes se formavam diante das catracas. Algo perto do caos.
Registrei mais ou menos no Twitter tudo que aconteceu – com algum delay, pois é Claro (com trocadilhos, por favor) que não consegui acessar o programinha dentro do metrô.
Já recebi comentários dizendo que não houve problema algum na estação Flamengo. Alguns também lembraram que hoje houve a inauguração da estação General Osório e da conexão Pavuna-Botafogo, com a presença do presidente Lula (aliás, é o fim da picada que o presidente da República venha inaugurar UMA estação de metrô numa cidade como o Rio de Janeiro). Enfim, não tenho a menor ideia do que está acontecendo pra um sistema de transporte que era bonzinho ter se tornado decadente tão depressa.
Já tratei deste problema há quase um mês, quando foi proposto um boicote ao metrô. As razões da queda da qualidade permanecem obscuras. O Metrô, ao menos, assume que opera “no limite”. Mas vou lançar uma hipótese aqui. A descrição dela vai ser simples; sua existência, porém, é complexa.
Se o metrô diz que opera no limite, então houve um aumento do número de passageiros de uns tempos pra cá. Seria um reflexo de uma suposta superpopulação carioca? Não creio. Lembram-se quando questionei a inflação descabida dos preços dos imóveis na zona sul? No bom debate que lá rolou, uma das possíveis conclusões foi a demanda maior por casas e apartamentos em bairros próximos ao metrô. Esta procura seria motivada pela vontade do cidadão em passar longe do trânsito cada vez mais caótico do Rio de Janeiro. Com ar condicionado, intervalos pequenos entre um trem e outro e imunidade a engarrafamentos, o metrô parecia ser uma ótima alternativa à convivência com motoristas (tanto de automóveis quanto de ônibus) loucos e mal-educados.
Mas os investimentos do metrô não acompanharam o crescimento da demanda e, agora, estamos perto da saturação. É preciso, sim, que a companhia aplique mais recursos no sistema. Mas é preciso também repensar todo o sistema de tráfego da cidade do Rio de Janeiro. Não dá mais para conviver com automóveis que fecham cruzamentos e desrespeitam sinais, nem com ônibus que vivem lotados e conduzidos por motoristas sádicos. A saturação, na verdade, não é do metrô. É de todo o transporte na cidade.
Os agentes envolvidos são muitos: governo, empresas de transportes e toda a heterogênea população do Rio de Janeiro. Reacomodar esse intrincado e desequilibrado fluxo de forças não é nada fácil. A solução passa por um conjunto de medidas, como rigor na punição a motoristas que burlam as leis de trânsito, maior fiscalização e regulação das concessões de ônibus, trens, barcas e metrô e estímulo a meios alternativos, como as bicicletas. Se reduzirmos o estresse das enervantes viagens via transporte público ou particular, a demanda pelo serviço poderá ser mais equilibrada, e as pessoas poderão escolher entre ônibus, metrô ou trem pelo que for mais confortável, e não pelo menos pior.
Estamos à beira da Copa, das Olimpíadas e, ao mesmo tempo, do colapso do trânsito carioca. Se nada for feito, aposto dois tostões que, em poucos anos, este se tornará o maior problema do Rio de Janeiro, superando a segurança e equiparando-se à saúde.
P.S. Espero que compreendam a diferença do tom entre o que foi publicado no Twitter, durante os problemas, e o que está escrito aqui no blog, horas depois, de banho tomado e cuca fresca. Não pretendo iniciar um novo boicote ao metrô, prefiro dar uma chance às novidades que entrarão em vigor amanhã. Mas não retiro o que disse.




23:15
Trackback
[...] This post was mentioned on Twitter by Raphael Perret, Fabiano Rocha Brum. Fabiano Rocha Brum said: http://migre.me/eMC0 RT @rperret: Metrô diz que opera 'no limite'. Cariocas, ajudemos o metrô: VAMOS DEIXAR DE USÁ-LO!! [...]
11:00
A problemática metroviária, pelo visto, não para: hoje, lá pelas 9:45, o metrô ficou parado durante vários minutos diante da construção da Estação Cidade Nova (entre São Cristóvão e Central). Chega a impressionar também a desinformação de vários passageiros a respeito das mudanças no trajeto, com a inauguração (a meia bomba) da Ligação Direta Pavuna-Botafogo (que hoje foi até a Glória). Muitos passageiros que esperavam o metrô em São Cristóvão imaginavam que a composição iria até o Estácio.
11:02
Daniel, eu não andei de metrô hoje, mas você viu algum folheto informativo sobre as mudanças distribuído ANTES da implementação delas?
14:24
Pois é, não vi. O Metrô também falhou ao não divulgar essas mudanças para os seus usuários. Também não vi nenhum aviso na estação Maria da Graça, onde embarquei.
20:12
Para a Copa e as Olimpíadas, as autoridade adotarão alguma “solução” mirabolante, do tipo “faixas exclusivas” ou algo à moda chinesa (proibir a circulação de metade dos carros)… e todo mundo vai achar lindo!
09:30
Não duvido nada que o Rio acabe adotando o método paulistano de rodízio de carros. Pra falar a verdade, isso vai acabar acontecendo, mais cedo ou mais tarde.
10:02
Eu aposto dois tostões e quantos pelés vocês quiserem que:
1) O governo vai investir milhões (saídos dos nossos bolsos) em obras superfaturadas até 2014 / 2016, com a desculpa de resolver a situação do trânsito, da segurança, etc.
2) As obras serão paliativas, já que, o exemplo do PAN deixa claro, não temos competência (ou seria vontade política) para realizar as mudanças realmente necessárias no tempo disponível.
3) Para os jogos, serão criadas medidas paliativas de forma a passar uma boa impressão para os gringos, a exemplo do que ocorreu na ECO92 e no PAN.
4) Após os jogos, várias das construções constituídas para os jogos serão abandonadas ou se deteriorarão rapidamente, dada a baixa qualidade técnica e de material empregado, para reduzir o custo e aumentar os louros nos bolsos dos nossos honestos políticos.
5) Após os jogos, algum laranja, chefe de algum setor, mas subordinado aos nossos governos, será alvo de alguma investigação, incluindo CPI e operação da PF com nome esquisito, mas ninguém será punido.
6) Algum novo evento dramático tomará a mídia, apesar do caos do trânsito piorar a cada dia.
7) Vamos continuar indo aos nossos trabalhos com os nossos narizes vermelhos (não de gripe, mas de palhaços, mesmo) e vamos continuar mugindo (reclamando) como boa boiada que se manifesta só com sons, mas basta algum capataz aparecer com uma chibata e arrebentar um só em praça pública pros demais se calarem… até a próxima revolta de gritos, sem eco.
21:16
rapaz,
vc já deve ter reparado a quantidade de condomínio sendo construído em jacarepaguá. mais de um maracanã abarrotado estará se mudando pra lá em breve. e o que aconteceu com o esquema de transporte da região? NADA.
07:11
t, não só transporte, como também a própria estrutura viária. Reparou nas grandes ruas de JPA? Três Rios, Geremário Dantas, Pau Ferro… tudo mão dupla, mas com uma largura que não dá mais vazão! Acho que a oferta de ônibus melhorou muito em uns 15 anos, mas quando vou pra lá à tarde, inevitavelmente pego engarrafamento na Pau Ferro por causa do grande fluxo, coisa impensável até há pouco tempo. Uma lástima. Com certeza o bairro entrará em colapso em poucos anos. Impressionante é que ninguém perceba isso.