Ficar de butuca: estar esperto, observar, prestar atenção. Butuca Ligada é atenção redobrada, ler as entrelinhas, examinar o superficial e o profundo. Saiba mais
  
Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
  

Motivos não faltam para os estádios vazios no Rio

08/03/2010 - 23:02 - por Raphael Perret

Compartilhar




Maracanã vazio para Flamengo x Madureira, na fria noite de 03/03/2010. Foto: Fim de Jogo

Há anos eu digo que o Estadual do Rio é uma chatice, mas achava que minha voz se perdia no clamor das multidões, pois eu via meus amigos bem empolgados. Parece, entretanto, que as coisas estão mudando. Em duas rodadas da Taça Rio, apenas 15.784 cidadãos pagaram para ver os jogos de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. O desprezo do torcedor é tão grande que o time de São Januário não conseguiu levar sequer mil pessoas a cada uma de suas duas partidas.

É fácil atribuir o desinteresse do torcedor a preços dos ingressos, horário dos jogos e má qualidade das partidas. Mas, será que elas influenciam mesmo? Não haveria outros motivos, mais profundos, que passam despercebidos e que  contribuem para os baixos números?

Além disso, será que a média de público do Carioca, em 2010, está muito abaixo das médias dos anos anteriores? Os números deste ano chamam mesmo a atenção, mas nunca jogos do tipo Fluminense x Bonsucesso ou Flamengo x América de Três Rios bombavam tanto assim. Procurei por estes números na internet e não consegui. Enfim, é importante descobrir se este campeonato de 2010 é um fracasso de bilheteria mesmo ou se nunca percebemos isso nos outros anos.

De qualquer forma, vamos listar e analisar algumas possíveis razões para a atual baixa frequência nos estádios?

Preços dos ingressos: realmente pagar R$ 30 pra ver Flamengo x Madureira numa quarta-feira fria, às 22h, com transmissão pela Globo, não parece ser uma atitude sensata. Com certeza o preço está alto para a qualidade apresentada pelo campeão brasileiro e pelo tricolor suburbano. Mas… diminuir o preço atrairia mais gente? Quantos incautos iriam ao Maracanã ver essa pelada se o ingresso fosse R$ 10? O público a mais salvaria o Flamengo do prejuízo de R$ 41 mil, mandante do jogo? Dirigentes acusam a meia-entrada de ser a vilã: “Quando se fala em R$ 30, na verdade seria R$ 15. Quando se fala em R$ 40, seria R$ 20″, disse o assessor do Fluminense, em reunião no início do ano. Bem, dobrar os preços mostrou não ser uma estratégia lucrativa. Está na hora de repensá-la. Mas o preço dos ingressos está intimamente ligado com o problema do…

Horário dos jogos: não bastassem as partidas às 22h no meio de semana por causa da Globo, também inventaram jogos às 19h30min de domingo, dia em que as cidades estão mais desertas e, claro, mais perigosas. E quem vai trocar a a night por um jogo no sábado à noite?  Logo, horários esquisitos e preços proibitivos são medidas perfeitas para afastar o público dos estádios. Ainda mais que, agora, os torcedores podem assistir os jogos pelo…

Pay-per-view: o aumento da oferta de jogos pela TV, mesmo que pagos, está mudando os hábitos dos torcedores. Afinal, o preço do ingresso dos jogos é quase igual ao da mensalidade do PPV, que garante a transmissão de todas as partidas dos quatro grandes. E esta, sim, é uma novidade em relação aos torneios de dez, quinze anos atrás. Somado aos fatores anteriores, o pay-per-view contribui para o desinteresse dos cariocas pelo campeonato.

Preferência por outros campeonatos: lembro-me do Telê, no início de 1992, reclamando da participação do SPFC na Libertadores daquele ano, dizendo que o torneio era violento, desorganizado etc. A decisão do título,  entre São Paulo e Newell’s Old Boys, foi transmitida pela finada Rede OM, obscuro canal de TV nascido naquele ano. Hoje, que emissora ou clube é louca de desprezar a disputa da Libertadores da América? O aumento da visibilidade da competição sul-americana modificou os interesses dos torcedores, que agora sonham mais alto e não se contentam com um Estadual. O Brasileiro também ganhou muito mais importância. Criado em 1971, ainda era novo e “estranho” para quem nasceu nos anos 50 e estava acostumado com os grandes jogos dos Estaduais. Hoje, uma nova geração se formou assistindo ao Brasileirão, que se tornou o principal objeto de desejo dessa torcida. Além disso, rivalidades interestaduais se intensificaram, tornando jogos como Flamengo x São Paulo ou Fluminense x Corinthians bem atraentes.  E a Copa do Brasil, “o caminho mais rápido para a Libertadores”, também ficou com mais destaque. Além disso, a crescente exposição do futebol europeu atrai muito os jovens, que cada vez mais se interessam por Barcelona, Manchester e Milan e menos se preocupam com jogos com Tigres, Boavista e outras potências mundiais. Logo, o Estadual fica relegado a segundo, terceiro plano.

Quantidade de times: a participação de 16 clubes neste campeonato é injustificável. Mas este não é necessariamente a maior razão para a fuga da torcida. Fiz uma pesquisa rápida em outros campeonatos cariocas. Em 1991, participaram 14 clubes (na verdade eram 24, mas, graças a formuletas estapafúrdias de épocas que, ufa, ficaram pra trás, só 14 tinham realmente chance de ser campeão, na prática). Em 1995, foram 16. Em 1999, chegamos a 10, um total bem razoável. Em 2004, quando o atual formato foi implementado, foram 12. Vê-se que o total de 16 não está muito acima da média dos Estaduais do Rio. Logo, resolver só este problema não vai melhorar muito a questão do público.

Mau aproveitamento dos estádios: não faz muito tempo que Flamengo, Botafogo, Vasco e Fluminense jogavam em Edson Passos, em Moça Bonita, no Conselheiro Galvão, na Rua Bariri, no Godofredo Cruz, em Nova Friburgo, em Bacaxá… A ida dos times a bairros mais distantes ou a outras cidades atraíam os torcedores locais, que ajudavam a dar um incremento na renda e no público dos jogos, até em horários mais “alternativos”. A proibição de partidas nestes estádios pode ser salutar em termos de segurança, mas, em contrapartida, tira dos moradores dessas regiões a possibilidade de ver seu time. Uma revisão dessa medida pode aumentar um pouco a frequência aos estádios no Estado do Rio de Janeiro.

Má qualidade dos times: isso é manjado, mas é verdadeiro. Vendemos nossos melhores jogadores, cada vez mais cedo, e ficamos, no Brasil, com a raspa da panela. Logo, se os grandes clubes já não apresentam valores de verdade, imagine os times pequenos. Os confrontos se tornam desinteressantes. Não à toa, desde 2007 que o campeonato é sempre disputado por dois grandes clubes (por acaso os mesmos, até agora). E há mais de 40 anos o título se alterna entre os quatro.

Expectativa grande: e  se, na verdade, a média do público até agora é bem semelhante à dos outros anos, e só estamos percebendo o fracasso porque a esperança de um belo futebol pelos grandes clubes era alta? Flamengo campeão brasileiro, Fluminense em recuperação brilhante, Vasco em lua de mel com a torcida… (Curiosamente, o Botafogo, que teve mais problemas após o Brasileiro – seu melhor jogador suspenso por doping, goleada para rival por 6 a 0 em casa -, foi o campeão da Taça GB). A presença do público não correspondeu a essa expectativa e, por isso, fica a sensação de fracasso do campeonato.

Portanto, não basta os dirigentes acharem que o preço e o horário são os principais problemas do campeonato (cara de pau, aliás). Se querem manter o Cariocão, é preciso identificar outros fatores que afastam a torcida e tentar minimizá-los. Mas seria fundamental perguntar aos cariocas, também, se o campeonato continua sendo tão importante assim. Será que nos surpreenderemos com a resposta?

E você, o que acha que está contribuindo para a baixa frequência dos torcedores no campeonato? Será que sempre foi assim?

5 já comentaram “Motivos não faltam para os estádios vazios no Rio”

  1. Simples: a proibição da venda de cerveja nos estádios…

     

  2. Raphael Perret

    É mesmo? E por que no Brasileiro os públicos eram BEM superiores?

     

  3. Alexandre Meire

    Essa fórmula de dois turnos só atrai torcedores nos jogos decisivos (semifinais e finais). Para um torneio de 3 meses, existem clubes demais (12 já seria muito). Compare com o Brasileiro, que dura 7-8 meses e tem apenas 20 clubes, apesar da fórmula ser melhor e a qualidade dos times bem superior.

     

  4. Dagner Fonseca

    IMHO, está diretamente relacionado com a qualidade: é um torneio pobre! Só serve pra nós, flamenguistas contarmos vantagens sobre os rivais… esse ano, nem pra isso deu, ainda! :P

     
  5. Na realidade acredito que muitos são os fatores que levam à baixa participação da torcida no carioca 2010. Dentre eles: Alto preço dos ingressos, sinal aberto de tv a cabo na cidade onde vai ser realizado o jogo, falta de policiamento e planejamento em segurança pública, proibição de venda da saborosa cerveja gelada, Mau estado deconservação dos estádios de futebol e a falta do planejamento do horário dos jogos. Dane-se a rede globo, a beleza do futebol ainda é o estádio cheio!!!!!!!!!

     


Ícone RSS Acompanhe os comentários deste post

Comente, escreva, participe!


    • Valid XHTML 1.0 Transitional
    • Valid CSS!
  •  

    Creative Commons License
    Butuca Ligada está licenciado sob uma Licença Creative Commons.
    Este blog é feito em WordPress | Tema desenhado por Adriana Simeone | Implementado por mim, com agradecimentos