Uma despedida
Eu tinha 13 anos em julho de 1992, Passava as férias escolares na casa da minha avó. No dia 12, domingo, estava felicíssimo com a acachapante vitória de 3 a 0 do Flamengo sobre o Botafogo, no primeiro jogo da decisão do Brasileiro daquele ano, e que escutei pelo rádio.
Passava minha alegria ao meu pai, por telefone:
- Viu, papai, Flamengo ganhou de 3 a 0 do Botafogo! É quase campeão brasileiro!
- E o que falta pra ser campeão?
- Ah, domingo que vem tem novo jogo, e o Botafogo só é campeão se vencer o Flamengo por três gols de diferença.
- Ah, é?
- É!
- Hum… Então vamos no jogo.
Aquele convite, em tom de decisão irrevogável (bem ao jeito dele, é verdade) me pegou de surpresa. Nunca havia ido ao Maracanã com meu pai. Na verdade, fazia anos que ele não ia a um estádio de futebol. A última vez fora antes de eu nascer. Ele achava que o futebol de antigamente era melhor e que ir era perigoso, pela violência.
Mas entendi o que passou em sua cabeça. Seria, provavelmente, um jogo de uma torcida só, tamanha a empreitada que o Botafogo teria que sobrepor para ser campeão. Ainda bem que ele pensou assim, pois eu nem cogitava a hipótese de ir ao jogo.
Graças a meu pai, tive a oportunidade de ver o Flamengo campeão brasileiro. Lembro de muitos detalhes do jogo. O susto com a arquibancada caindo, durante a preliminar; a torcida tomando conta de todo o anel do Maraca; o golaço de Júnior, de falta, bem no gol em que eu estava em frente – e que me gerou uma perna ralada na comemoração; a comemoração do penta.
Mas o beijo do meu pai na minha testa, ao me ver feliz após um dos gols do Flamengo, é a minha maior lembrança daquele jogo, daquele dia. O beijo era o símbolo de tudo o que representou a ida do meu pai comigo ao Maracanã: uma prova de amor. Sim, era evidente, bem evidente. Ele me levar a uma decisão do Flamengo só podia ser uma prova de amor.
Não exatamente pelo fato de meu pai aparentar um certo desinteresse pelo futebol da época.
Mas porque meu pai era vascaíno.
Obrigado, papai, por tudo. Descanse, porque os últimos meses foram difíceis. Fique em paz, enquanto nós ficaremos, aqui, com a saudade e as boas lembranças, como essa.
Um beijo.


23:32
Chorei….
23:43
Um abraço, meu velho. Força sempre!
00:12
RT Cláudia Simas…
09:26
Que texto lindo, Perret!
Fiquei emocionado…
Não sou muito mais velho que você, mas lembrei da decisão de 87, quando meu pai me levou ao Maracanã. Ele era flamenguista, mas não ligava muito para futebol. Mesmo assim, sabia da minha paixão e fazia questão de me levar ao estádio.
Perdi meu pai há pouco mais de dois anos e te garanto, meu caro: a saudade não acaba nunca. No último dia 12, chorei muito logo pela manhã, pois seria aniversário dele, mas os afazeres do dia me fizeram esquecer não dele, mas da dor.
E é assim que funciona. Os afazeres da vida nos fazem esquecer da dor, mas, por incrível que pareça, não fazem a saudade diminuir.
E isso é bom.
Força aí, xará!
09:55
=’(
10:54
Crônica que me fez chorar, mesmo na frente de estranhos.
10:54
Emocionante. O velho era o máximo, heim?! Só quem convive diariamente com um vascaíno (eu, por exemplo!) pode ter a dimensão do que o teu pai fez por ti.
10:58
Perret, eu me lembro de seu pai em Jacarepaguá, acho que foi a única vez que fui lá. Eu ia te ligar, mas fiquei pensando o que falar. Todo aquele tempo tomando a vitamina que sua vó fazia, jogando as peladas do play, indo de vez em quando aos jogos do Flamengo e, depois, compartilhando a vida dura de jornalista via redes sociais, me deixaram com uma certa dor no coração permanente, angustiado em saber como você está, se está levando bem.
Bom, eu envio energias por aqui, como tenho enviado durante esses dias, e sei que você terá a sabedoria de interpretar tudo o que sei pai te passou e seguir em frente, mesmo que falte um pedaço. Um forte abraço do eterno amigo, Gustavo.
11:00
Que lindo, Raphinha!
11:19
Perret, só pai e mãe para gestos de amor incondicionais assim. Não o conheci, mas tá na cara que era gente muito boa – afinal, você é um cara mega-do-bem… afinal, ele era vascaíno.
Força aí, camarada.
11:44
Meu caro, apesar desse momento doloroso, o que me veio à cabeça agora é que você é um sortudo!!! Em dias como o de hoje, quantas pessoas podem lembrar de momentos como esse numa relação pai e filho?
Parabéns pelo exemplo que você é, pela família que você tem! Onde quer que esteja, tenho certeza que seu pai se orgulha de você, como deve ter se orgulhado sempre! Hoje que sou pai, entendo que é para isso que criamos filhos: para nos orgulhar deles… você cumpriu e continua cumprindo seu papel, meu rei!
Força!
11:58
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00:37
Ele que te deu essa inteligência e perspicácia
23:42
Amigos, agradeço imensamente a todos pelo carinho e pelas palavras. Obrigado mesmo, de coração.
Raphael, sei muito bem como é. Já me sinto bem, mas a saudade é grande, e deve permanecer assim durante muito tempo.
Gustavo, lembro também bem das caronas que ele dava pra gente quando íamos aos shows no Metropolitan…
Abs!
13:18
Tive que chorar também. Lindo, Rapha. Que você possa ir muitas vezes com o Caetano ao Maracanã. E que ele seja vascaíno (como seu pai e eu mesma.
).
Beijos,
Cla