Sem golpismos ou ameaças às liberdades
Uma discussão bem interessante, sobre esta brigalhada entre Lula e imprensa em pleno período eleitoral, surgiu em uma lista da qual participo. Um colega, num certo instante, perguntou o que cientistas políticos, no futuro, falarão dos episódios deste ano de 2010. É preciso avançar no tempo para obter perspectiva histórica, mas resolvi me arriscar nessa futurologia.
Bem, aposto que análises mostrarão uma cobertura completamente tendenciosa, chegando ao requinte de publicar textos irônicos, preconceituosos e altamente editorializados (sim, estou falando da Veja). Se a Dilma ganhar, será reforçada a tese de que a grande imprensa definitivamente deixou de influenciar a opinião pública como antes, o que já foi aventado em 2006, quando a candidatura de Lula recebeu carga pesada (embora eu ache que em 2010 esteja pior).
Também será comprovado que o discurso de que as liberdades são ameaçadas no Brasil (reforçadas pela Veja desta semana – grato, @erikasara – e pela incrível capa do Extra de sexta-feira, 24) é vazio, exagerado e, óbvio, político, já que o que mais se viu nos últimos anos foram matérias críticas ao governo, às vezes grosseiras, às vezes de frágil sustentação, sem que houvesse qualquer tentativa clara de cerceamento à liberdade de expressão. E será avaliado que os movimentos do governo associados a um suposto “controle da imprensa”, como classificaram os veículos, vieram de eventos destinados ao debate sobre o tema (Confecom) ou de propostas levantadas para a regulamentação dos setores de comunicação (Ancinav, Conselho de Jornalismo), o que é bem diferente de censura e já existe em diversos outros países democráticos.
Uma conclusão possível desses futuros estudos será que a liberdade de imprensa não esteve em perigo. As críticas contundentes do presidente Lula, embora desnecessárias porque provocam um clima hostil entre instituições essenciais para a democracia, não carregam nenhuma ameaça em si e não passam de recurso manjado de governantes questionados.
Também se verificará que, se essa imprensa ainda quer manter alguma credibilidade e popularidade, adquiridas com méritos (durante anos em que demonstrou fazer bom jornalismo) e por razões circunstanciais (quando não havia fóruns adequados para que ficasse na berlinda), precisa aceitar também as críticas e a vigilância da sociedade, que exerce esse direito através de blogs e sites voltados para o tema.
Os estudos ponderarão que, apesar de a mídia merecer muitas críticas, não é tratando-a como “imprensa golpista” que a situação vai melhorar. O que se deve cobrar dos veículos é o respeito a princípios básicos de jornalismo, como objetividade, apuração rigorosa e honestidade com o leitor (a imparcialidade é um mito). Os novos blogs e sites contribuem para a – fundamental! – democratização da comunicação, mas o poder da mídia tradicional ainda é absurdamente maior. E é conveniente que ela disponha mesmo de recursos (financeiros, tecnológicos etc.) para noticiar e apurar informações às quais cidadãos comuns e blogueiros autônomos costumeiramente não têm acesso.
Enfim, essas análises verificarão que a recente ascensão, na esfera pública, das minorias e dos movimentos sociais já é um alento para que os debates sobre questões de interesse da sociedade ocorra em níveis democráticos. Se todos (imprensa, governo e os críticos a ambos) baixarem um pouco a bola, sem radicalismos, verão que isso já está acontecendo. Sim, ainda há muitas distorções no jornalismo praticado hoje e na relação governo x veículos. Mas sem golpismos midiáticos e sem ameaças à liberdade de imprensa.
P.S. Precisamos esperar pela análise de 2010, mas o livro “Jornalismo e política democrática no Brasil”, de Carolina Matos, já traz um estudo aprofundado da cobertura jornalística dos principais eventos políticos no período da redemocratização: Diretas-Já, eleições de 1989 e impeachment de Collor, eleições de 1994 e eleições de 2002. Ainda não terminei, mas recomendo pelo que já li.
P.S. 2 As principais fontes de inspiração para este meu texto são dois artigos do Observatório da Imprensa: “A pauta do debate político”, de Alberto Dines, e “Por um pingo de serenidade”, de Eugenio Bucci. As ideias já estavam na minha cabeça, mas foram estes textos os responsáveis pelas conexões construtivas do post.
P.S. 3 Por fim, dica do @roneyb: o artigo “Lula, a imprensa e eleições 2010″, do cientista político Fabricio Vasselai, traz praticamente o mesmo ponto de vista deste post, só que bem mais detalhado.


15:41
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