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Decolagem rumo ao passado

05/06/2011 - 21:42 - por Raphael Perret

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Foto do Aeroporto Internacional Tom Jobim. Fonte: Infraero

Gostar de viajar no Brasil de hoje é uma insanidade. Quem é capaz de ter prazer em desviar das inúmeras obras nos saguões dos aeroportos, ser abordado por fiscais mal-humorados, aguardar horas em filas para fazer check-in, para embarcar e para sentar-se no avião e, no fim disso tudo, ainda viajar espremido em assentos nos quais só o Marco Maciel pode sentir-se realmente confortável? Acho que… eu.

Não, não me agradam esses perrengues. Quando acontecem em profusão (quase sempre, infelizmente), a irritação é tamanha que só quero chegar ao meu destino o mais rápido possível. Mas confesso que ainda tenho algum prazer por todo o clima que envolve aviões e, sobretudo, aeroportos. Provavelmente uma conservação da minha infância dentro desta alma aparentemente adulta.

Meus passeios de avião, quando criança, foram muito raros. E, não se esqueça, nos meados dos anos 80 viajar era muito caro, privilégio de executivos, políticos e famílias de renda alta. Lembro de ver, há pouco tempo, uma foto numa dessas revistas que as companhias colocam na frente do passageiro para distraí-lo. Ela mostrava uma espécie de bar, com pessoas segurando drinks em volta de um músico tocando piano. Segundo a legenda, tratava-se do segundo andar de um avião antigo, se não me engano nos anos 70, quando os vôos ostentavam muito luxo, bem ao contrário dos tempos de hoje. Por isso, eu só ia a aeroportos com meu pai para levar ou buscar minha mãe, que viajava bastante a serviço pelo IBGE. E eu adorava esses momentos. Raros e, até por isso, valiosos.

Lembro que o aeroporto era silencioso. Tinha um cheiro bom. Imponente, exigia respeito e concentração. A voz suave e robótica da Íris Lettieri reforçava o tom solene do ambiente. Adorava comer nos restaurantes e lanchonetes do Galeão, bem como admirar os produtos importados e caros por trás das vitrines das lojinhas. Vivia imaginando como seria trabalhar ali diariamente, tão perto de monstros alados que pousavam e decolavam a poucos metros dali, para destinos os mais variados. Acho que o aeroporto era o mais próximo que eu chegava de uma viagem internacional, sonho não realizado por muito tempo.

Hoje, viajo com mais freqüência por questões profissionais e, por isso, a banalização dos vôos corta um pouco o glamour de outrora. Também está mais clara a negligência com os aeroportos, principalmente do Galeão, tão mal cuidado. Mas confesso que ainda me dá uma sensação gostosa folhear as publicações expostas nas grandes livrarias, tomar um café durante a espera pela chamada de embarque, ver os painéis eletrônicos indicando horários, portões e avisos. O ambiente, há muito tempo, deixou de ser silencioso e perfumado. Mas, apesar dos maus tratos, os aeroportos se esforçam em ser lugares aprazíveis para minimizar o sofrimento de longas esperas. Apesar de tudo, ainda merecem o meu respeito. Nostálgico, mas sincero.

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2 já comentaram “Decolagem rumo ao passado”

  1. Eu adoro viajar de avião, mas tbm sinto aquele frio danado na barriga…huahauhau…é normal! Mas a questão de ficar nos aeroportos, não é comigo ;)
    Abraços!

     
  2. Eu também gosto muito do ambiente do aeroporto, de uma viagem de avião. Talvez por não fazer com tanta frequência, como você abordou no texto.

    Ainda não tive o (des)prazer de fazer uma viagem nessa época de obras nos aeroportos, mas já fiquei sabendo que alguns pelo Brasil até já possuem “puxadinhos”. Então prefiro ficar mais um tempo sem as viagens…

    Guardo na memória as viagens que fiz na década de 90, quando era criança. Acho que você vai concordar comigo, que mesmo nesse período, ainda era bom voar de avião…

     


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