Por um estilo de vida que ajude no combate ao câncer
Anticâncer, lançado em 2007, é um relato de David Servan-Schreiber, médico, sobre como a descoberta de que tinha câncer o levou a estudar os mecanismos de inibição e estímulo do sistema imunológico do corpo humano quando encontra células cancerosas – que todos nós carregamos, conforme destaca a quarta capa da publicação. As revelações, das mais óbvias às mais surpreendentes, são todas importantes.
O livro ganha força quando revela a irônica coincidência que ocorreu com o autor. Schreiber descobriu ter câncer no cérebro, ele que era psiquiatra e neurocientista. A revelação da doença foi ainda mais inusitada: substituindo um estudante que serviria de “cobaia” para um experimento em um aparelho de ressonância magnética. Passadas as angústias de quem descobre ter uma grave doença, o médico fez o tratamento convencional, foi curado e voltou às atividades normais. Porém, o tumor retornou.
A partir desse momento é que Schreiber inicia sua pesquisa sobre terapias alternativas aos métodos já existentes. Em seus estudos, começou a indagar-se por que o câncer na Ásia tem, dependendo da área do corpo atingida, uma incidência de 7 a 60 vezes menor do que no Ocidente, embora microtumores pré-cancerosos de próstata se apresentem na mesma quantidade em todo o mundo. Descobriu que a taxa de chineses que foram para os EUA e adquiriram a doença era igual à de um ocidental. E começou a concluir que a herança genética tem pouca influência sobre a possibilidade de se ter um câncer e o que afeta mesmo o crescimento de tumores malignos são os hábitos de vida.
Os resultados das pesquisas compõem o que Schreiber chama de “biologia anticâncer”, um conjunto de práticas fundamentais para a prevenção e o tratamento da doença. Essa “Biologia anticâncer” pode ser dividida em quatro grandes orientações, resumidas a seguir:
- cuidado especial com a alimentação, evitando o açúcar, preferindo uma dieta vegetariana, com flexibilidade para incluir, no máximo, peixes e carnes orgânicas;
- buscar o equilíbrio emocional, tentando identificar e vencer seus traumas, e evitar trocar os mais desejos mais sinceros e profundos por uma aceitação de pessoas importantes (como, por exemplo, deixar de seguir uma carreira com que sempre se sonhou para seguir a profissão do pai e deixá-lo orgulhoso);
- praticar atividades físicas;
- dar atenção ao meio ambiente.
Não cheguei a comparar com precisão, mas tive a impressão de que o tema alimentação é o mais destacado. Faz sentido, pois se trata da ação mais fácil e menos contraindicada, já que a dieta sugerida é rica em frutas, legumes e verduras. O autor ainda lista os alimentos com mais evidências de sucesso em um tratamento de câncer.
Evidências científicas, pesquisas bem-sucedidas e a falta de apoio político e financeiro
O melhor do livro é o misto de narração com dissertação – afinal, trata-se de uma história permeada por escolhas e argumentos que precisam de defesa e explicações. O relato é cheio de vida, uma fábula que transforma a arrogância de um cientista brilhante na humildade de um open-minded pesquisador que é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto de seu estudo. E a argumentação se equilibra entre a serenidade exigida pelo rigor científico e o entusiasmo na constatação dos avanços/progressos/evidências de que certas práticas e alimentos contribuem para a melhora ou, no mínimo, para um tratamento menos sofrido, sempre com referências a pesquisas feitas por outros cientistas. Schreiber defende suas teses e estudos, mas compreende os colegas médicos não prescreverem o que ele defende porque não há provas científicas, por exemplo, dos benefícios do chá verde ou da prática do judô.
O autor ainda encontra espaço para denunciar a falta de apoio financeiro para as pesquisas da influência dos alimentos no combate ao câncer, porque nenhuma empresa farmacêutica se beneficiaria disso (o que justifica a ausência de prova científica). Também cita o caso de um parlamentar norte-americano que, ao defender a diminuição do uso de carne vermelha por conta dos malefícios que ela traz, não conseguiu mais doações para as suas campanhas, já que vinha de um estado em que a pecuária era uma atividade econômica forte.
A atividade psiquiátrica lhe permitiu ter contato com outros portadores de câncer. O acompanhamento de pacientes a quem recomendava as práticas da “biologia anticâncer” e o consequente impacto positivo das medidas reforçaram suas hipóteses. Aliás, a própria vivência do autor ajuda a documentar sua teoria: ele relata como se sentiu melhor quando aperfeiçoou a alimentação. E sua própria longevidade também diz muita coisa: Schreiber morreu em julho de 2011, após lutar 19 anos contra a doença.
O autor não pretendia ser um iconoclasta. Sempre que pode, em Anticâncerreconhece a importância do tratamento convencional, embora critique médicos que “nem olham” para o paciente. Mas indica com ardor a aplicação da biologia anticâncer, lembrando que não há, na suprema maioria dos casos, contraindicação (exceto algumas atividades físicas).
Comecei a ler Anticâncer durante a pior fase da doença que tomou conta de meu pai, no final de 2009. Interrompi a leitura algumas semanas depois do início, mas a retomei porque passei a tentar entender o funcionamento dessa maligna doença. Recomendo fortemente. Aos céticos, tem as evidências científicas. Aos desiludidos, fontes de informação que podem trazer esperança e conhecimento para viver momentos tão difíceis. Lamento apenas, pelas circunstâncias da vida, não ter lido antes o livro. Talvez o desfecho não fosse diferente. Mas, pelo menos, teríamos tentado algo a mais.


10:11
Muito bom o post. Sempre esbarro nesse livro, mas nunca o compro. Fiquei com vontade de ler. A gente esquece de dar atenção ao estilo de vida e isso é tudo o que não deveríamos fazer.