Com o objetivo de promover um debate sobre a pendenga do título brasileiro de 1987, o Marmota me convidou a escrever um comentário. Lá vocês podem ler todos os textos que ele publicou. Aqui, reproduzo o que eu escrevi.
A CBF determinou que Flamengo, Internacional, Sport e Guarani disputassem um quadrangular para indicar o campeão brasileiro de 1987. Os times carioca e gaúcho se recusaram a jogar e, entre paulistas e pernambucanos, deu Sport, aclamado com o título, depois confirmado pela justiça comum. Por que, então, o Flamengo põe na sua conta a conquista da Copa União de 20 anos atrás e, com isso, afirma ter sido o primeiro time a ganhar cinco títulos brasileiros?
Simples: porque o Flamengo foi, de fato, o campeão brasileiro de 1987.
Naquele ano, a CBF admitiu que não tinha condições financeiras de montar um campeonato nacional. Assim, os quatro grandes clubes do Rio, os quatro de São Paulo, os dois de Minas, os dois do Rio Grande do Sul e o Bahia fundaram o Clube dos 13 e assumiram a responsabilidade de organizar o torneio.
A CBF passou a apoiar o planejamento do campeonato pelo Clube dos 13, desde que Goiás, Santa Cruz e Coritiba fossem incluídos no torneio. Pedido atendido, a Copa União começava a ganhar forma e respaldo oficial.
Porém, outros clubes estavam descontentes por ficarem fora da festa, principalmente o Guarani, vice-campeão de 1986, e o América do Rio, que perdera a semifinal do Brasileiro de 1986 para o São Paulo. Para atendê-los, a CBF resolveu montar, por conta própria, um campeonato com outros 16 clubes. Em seguida, anunciou que este torneio seria o módulo amarelo da Copa União, enquanto o campeonato organizado pelo Clube dos 13 seria o módulo verde. Os dois primeiros colocados de cada um dos módulos disputariam o título brasileiro.
E, assim, começa a confusão. Era patético o clube vencedor do módulo verde, com os maiores times do país, correr o risco de perder um título em dois ou três jogos contra dois clubes provenientes do módulo amarelo, considerado a “segunda divisão” pela imprensa, na época.
O Clube dos 13 rejeita a fórmula e garante que não vai disputar o quadrangular. Ocorrem os dois torneios. Flamengo e Internacional, finalistas do módulo verde, mantêm-se firmes e se recusam a entrar em campo contra Sport e Guarani, vitoriosos do amarelo. Então a CBF dá o título ao Sport, etc. etc.
É comum acusarem o Flamengo e o Inter de quebrarem as regras do campeonato por não terem disputado o quadrangular. Mas se houve rompimento de acordo, partiu da própria CBF, ao trair o Clube dos 13 e promover a ridícula fórmula depois de combinar a Copa União. A mesma acusação de quebra de regras se aplica ao próprio Sport e ao Guarani, que ignoraram o regulamento do jogo e dividiram preguiçosamente o título do módulo amarelo, após uma disputa de pênaltis que se estendeu até o placar de 11 a 11.
Afinal, que moral tinha a CBF de decidir quem seria o campeão brasileiro se ela mesma assumiu não ter condições de montar o campeonato?
Campeonato que foi organizado e disputado pelos treze maiores clubes do país, os mesmos que acumularam mais pontos, que tiveram a melhor média de público, o maior número de jogadores convocados para a seleção e os maiores artilheiros da competição desde o seu início, em 1971, segundo artigo publicado pelo Jornal do Brasil em 15 de julho de 1987.
Campeonato que obteve a terceira melhor média de público da história (20.877 torcedores por partida), marca que, até hoje, segue inalcançada.
Campeonato que obteve 91% de aprovação dos torcedores, segundo pesquisa do Ibope ao final do torneio.
Campeonato, portanto, mais do que legítimo.
Pois o Flamengo conquistou este campeonato nacional legítimo, depois de 19 jogos, superando Internacional (na decisão), Atlético-MG (na
semifinal), Cruzeiro, Grêmio, São Paulo, Fluminense, Palmeiras, Botafogo, Vasco, Bahia, Coritiba, Goiás, Santa Cruz, Santos e Corinthians.
É por tudo isso que o Flamengo é, desde 1992, pentacampeão brasileiro. Hoje, com alegria e respeito, o rubro-negro recebe um vitorioso colega no grupo que inaugurou, o dos times com cinco títulos nacionais. Seja bem-vindo, São Paulo. Quinze anos depois, finalmente temos uma companhia.
(Mais sobre a Copa União de 1987: no site Trivela, no artigo “Crise, revolução e traição”, e no livro Passes e impasses – Futebol e cultura de massa no Brasil, de Ronaldo Helal, lançado pela Editora Vozes)