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Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
  

Posts com a tag ‘literatura’

Música, Rio, Legião Urbana, futebol e literatura

06/05/2010 - 7:20

Terminei há pouco tempo a leitura de três livros (uma proeza inédita, deve ser a era de Aquarius). Em comum entre eles, a característica de coletânea. Dois, de artigos; um, de contos. Pitacos:

Capa do livro "Canções do Rio"Canções do Rio – organizado pelo amigo Marcelo Moutinho, reúne artigos sobre a presença da cidade do Rio no cancioneiro brasileiro. O time escalado ganha mole qualquer Brasileirão de cronistas: João Máximo, Sério Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger, cada um abordando uma fase cronológica ou um (ou mais) estilo musical. Ler os textos é uma delícia, pois dá uma vontade enorme de ouvir todas as músicas citadas. E a absorção do livro continua após a leitura, uma vez que, na internet, é fácil achar as letras completas ou baixar as músicas e ouvi-las. O chato de Canções do Rio são algumas redundâncias e, principalmente, a concisão – compreensível – dos textos. Cada artigo começa tentando defender alguma tese, mas no fim se revela superficial, dando um gostinho de quero mais. Como um despertador de novos estudos sobre a Cidade Maravilhosa como musa dos letristas, o livro funciona muito bem.

Capa do livro "Como se não houvesse amanhã"Como se não houvesse amanhã – coletânea de contos inspirados em 20 canções da Legião Urbana, organizada por Henrique Rodrigues. Cada autor pôde escolher uma música e, no fim, todos os discos foram contemplados na obra. Em alguns casos, o contista usa a música como trilha sonora para uma história; em outros (maioria), a letra é recontada por meio de uma nova ação. Infelizmente, a diversidade incorreu não apenas na narrativa, mas na qualidade dos textos. Enquanto alguns se destacam pela criatividade e fuga do óbvio, como “Tempo perdido” (de Tatiana Salem Levy) e “Por enquanto” (de Renata Belmonte), outros pecam pela ingenuidade ou por serem meros exercícios de demonstração de riqueza vocabular. Em comum, entre todos, um cheiro de perda, dor e tristeza. Astros predominantes no universo de Renato Russo.

Capa do livro "Passe de letra"Passe de letra – compilação de crônicas escritas por Flávio Carneiro, professor de Literatura da Uerj, para coluna que ele manteve entre 2007 e 2008 no jornal literário Rascunho, de Curitiba. Mistura observações sobre o esporte bretão em muitos de seus aspectos com a experiência do autor como jogador de futebol, antes de optar pelo vestibular para a faculdade de Letras. O texto é sempre bem-humorado, repleto de situações cômicas, porém emocionante nos momentos mais sensíveis, como o texto em que o autor fala de sua escolha de Sofia entre o vestibular e a carreira esportiva. As narrativas, verdadeiros “causos” do futebol, são tão bem construídas que o leitor é capaz de questionar onde há verdade e onde há ficção – mas isso acaba sendo irrelevante. Pode agradar a quem curte o futebol mas não tem intimidade com a leitura, assim como pode ser prazeroso aos fãs de livros e têm repulsa pelo esporte mais popular do Brasil. Para quem gosta de futebol e literatura, é um deleite.

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O clube do filme, do pai e do filho

14/01/2010 - 22:21

Capa do livro 'Clube do filme', de David Gilmour

Ex-crítico de cinema, David Gilmour (que não é o guitarrista do Pink Floyd) está desempregado e, como se não bastasse, vê seu filho Jesse, de 15 anos, ter tanta afinidade com a escola quanto tem um ateu com a igreja. O pai propõe ao jovem que, sim, ele pode abandonar as aulas, desde que assistam, juntos, três filmes por semana. Jesse aceita. O desenrolar das sessões é contado por David em O clube do filme.

O autor admite, em tom franco, que não sabia aonde chegaria essa tática de descabelar os pais mais ortodoxos. E o livro é conduzido de tal forma que o leitor não tem a menor ideia no que o “clube” vai se desdobrar. Será que Jesse se tornará um crítico de cinema (se fosse um filme, este talvez fosse o desfecho mais óbvio)? Um bandidão? Um PhD em Astrofísica? Só se descobre seu futuro na última página.

Mas no que Jesse se transforma após o “clube do filme” é secundário. O mais importante é o relacionamento entre pai e filho no período da experiência, que se torna profundo de uma maneira que seria impossível se David estivesse empregado e se Jesse frequentasse a escola diariamente.

O cinema foi a aliança que uniu pai e filho em época tão difícil da vida de ambos. Porém, menos pelos filmes em si, mais pelos momentos em que passaram juntos.

Foi graças ao “clube” que David descobriu as questões que afligiam Jesse, fontes de recordação de sua própria juventude e que lhe possibilitaram se aproximar tanto de seu filho. As angústias do jovem são bem semelhantes às de qualquer adolescente, e é isso que torna O clube do filme bem prazeroso: o livro trata de um pai e um filho adolescente que conseguem se entender, trocar ideias, serem respeitoso um com o outro… serem amigos. São duas pessoas comuns vivendo uma relação que é tão incomum hoje em dia mas, ao mesmo tempo, tão genuína.

Ah, e subjacente a tudo, um passeio pelo cinema, com comentários técnicos e afetivos de David Gilmour sobre os filmes exibidos. Para quem curte, as observações funcionam como cimento entre os tijolos que compõem a verdadeira história de O clube do filme.

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Dicas literárias: “Vidas secas”, “A revolução dos bichos” e Skoob

19/07/2009 - 13:48

Terminei duas obras famosíssimas e que me despertaram insights e me deixaram incômodos.

Xilogravura de Vinícius Mattoso, ilustrando Vidas secas. Fonte: Wikipedia

(1) Me interessei em ler algo de Graciliano Ramos depois que fui a um debate sobre literatura e cinema no Cine PE em maio. Um dos temas foi a adaptação de livros para a telona, e em determinado momento o escritor José Roberto Torero comparou Graciliano Ramos (“direto, seco”) com Guimarães Rosa (“com suas ‘viagens’ maravilhosas”) e com Clarice Lispector (que “gastava páginas e páginas para falar de uma barata”). Como Clarice já conheço um pouco e tá difícil de achar a obra-prima de Guimarães Rosa, investi no Vidas secas que descansava, empertigado, na estante aqui em casa.

O livro traz episódios da vida de uma família de retirantes nordestinos que fogem da seca e da miséria. Cada capítulo é um conto, de certa forma, isolado dos outros, com início, meio e fim, mas, como diz a orelha da minha edição, “de tal forma solidários que só no contexto adquirem sentido pleno”. A narrativa, do tipo onisciente, é rica em detalhes sobre as sensações dos personagens, inclusive da cadela Baleia, e ajuda muito a entender angústias de quem vive numa pobreza que limita desejos e horizontes. Fiquei encantado com a forma com que o texto ilustra a dificuldade de Fabiano, o pai da família, em argumentar e discutir por conta de sua pouca instrução: ele sabe o que sente, mas não consegue verbalizar. E a frase “apanhar do governo não é desfeita”, proferida pelo próprio Fabiano, sintetiza, com fortes tintas, a resignação que assola a muitos diante de atrocidades cometidas pelo poder público.

Ah, e se o estilo de Graciliano Ramos é “direto,seco”? Depende do ponto de vista. É subjetivo na medida em que penetra na mente dos personagens. Mas é objetivo ao ilustrar o que se passa na cabeça de Fabiano, Sinhá Vitória e de seus dois filhos e de Baleia. Só sei que funciona muito bem.

(2) Passando por um sebo em Botafogo, comprei A revolução dos bichos, que eu já desejava ler desde a adolescência.  O texto objetivo e o tamanho do livro me ajudaram a devorar a obra de George Orwell em menos de dois dias. Na fábula, os animais de uma fazenda se insurgem contra seu dono humano e passam a administrar os negócios da casa. Os porcos, mais inteligentes que os demais bichos, assumem a liderança da “República” e, em nome da igualdade, liberdade etc., impõem um regime autoritário, com práticas que vão da rígida disciplina à manipulação da informação. No fim, perguntam-se os animais, o mundo ficou mesmo melhor, como dizem os leitões governantes?

A revolução dos bichos é um ensaio para o livro mais famoso de George Orwell, 1984, em que o autor destila todo o seu temor sobre uma sociedade em que a informação é rigorosamente controlada, o que inclui reescrever a História (sim, com H maiúsculo: História, passado, fatos já ocorridos). Se, em 1984, esta dinâmica é aprofundada com descrições meticulosas, em A revolução dos bichos a narrativa é mais direta (às vezes até demais), e a escolha pela fábula facilita a compreensão da mensagem: mais do que o bélico ou o administrativo, é o material informativo o mais valioso dentre todos aqueles controlados por um poder autoritário. Enfim, gostei mais de A revolução… do que de 1984, sobre o qual já havia opinado rapidamente.

(3) Nem pensava em escrever este item 3, mas é inevitável. Embora os temas dos dois livros sejam diferentes, ficou claro que Vidas secas e A revolução dos bichos têm uma característica comum:  expor os obstáculos à participação de quem não teve acesso à educação. E, em graus diferentes, as duas obras denunciam a exploração, pelos governantes, desta incapacidade comunicativa.

(4) Para encerrar, uma dica internética. Entrei no Skoob, rede social brasileira cujo fio condutor é a experiência com os livros. Você se cadastra e monta a sua “estante”, com os livros que já leu, está lendo, pretende ler ou deixou de ler no meio. Por meio destas preferências, você pode encontrar amigos que têm gostos semelhantes, além de poder opinar sobre as obras e trocar ou emprestar livros.

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Sobre ler e escrever

26/04/2009 - 10:57

Afastamento temporário dos livros me mostrou a real importância da leitura para quem vive ou gosta de escrever.

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Visita ao Fórum das Letras

06/11/2008 - 22:44

Ó onde tô:

Foto de Ouro Preto - MGE aí, alguém quer um doce de leite, ou o reboco de uma igreja (Ministério da Cultura, é brincadeira, tá?), ou a pedra de uma ladeira…? Volto na sexta. Enquanto isso, visito o Fórum das Letras. Recomendo. Ambiente bonito e criativo, conexão wi-fi e muito debate sobre literatura, poesia e música. Vai até domingo.

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