
Não senti a mesma tristeza e arraso em que muitos mergulharam com a morte de Michael Jackson. Se fosse há quinze anos, quando ele ainda gravava discos e lançava canções com alguma qualidade, tenho certeza de que eu seria atingido. Mas por que isso não acontece hoje? Ao lançar essa questão no Twitter, o @Evidente deu a resposta certeira e um tanto quanto, se me permitem o clichê… evidente: MJ morreu faz tempo.
O ocaso de Michael Jackson não foi uma exceção da linha do tempo típica das megacelebridades. Raramente um ídolo morre no auge de sua carreira. A diferença, em prejuízo de MJ, foram a quantidade de escândalos e bizarrices em que se meteu e o enigma que foi sua vida nos últimos anos.
Tanto poder, dinheiro, fama e sucesso desandam a cabeça de qualquer um. A degringolada é acentuada pelo trabalho precoce, iniciado desde os cinco anos. Não se constrói um parque de diversões em casa para receber crianças à toa, assim como não se é cabotino sem influências do passado. Se MJ se submetia a tratamento psicológico ou se este era ineficiente é apenas mais um mistério que circunda a biografia do astro.
As maluquices do cantor não se comparavam às excentricidades marqueteiras de muitos ídolos pop. Tudo ganhava um contorno de mistério. Afinal, ele se tornou branco porque quis ou porque sofria de doenças? Como ele se metamorfoseou tanto? Dormia mesmo com as crianças que o visitava? Era pedófilo? A falta de explicações convincentes só ajudou o público a aumentar as desconfianças, diminuir o encantamento e aflorar o sentimento da compaixão.
Mas eu seria leviano se dissesse que a morte de Michael Jackson é um fato indigno de destaque. Esquisitice alguma é capaz de reduzir a importância do cantor para a história da música. Ou para a minha história.
Lembro, mesmo com três anos de idade, quando o extenso videoclipe de Thriller passou no Fantástico: morria de medo da possibilidade de um lobisomem ou um zumbi aparecer no meu quarto à noite. Uma das minhas canções prediletas da época era Don’t stop ’til you get enough, a eterna música do Video Show. Mas a lembrança mais contundente foi o uso que fiz do astro para me aproximar de uma paixão da juventude. Para tentar sempre diálogo com ela, fã de MJ, comprei os quatro principais discos adultos e acompanhava tudo que era divulgado sobre o artista. Uma tentativa de resolver os tradicionais dilemas da timidez diante de amores púberes . Bem, não adiantou de nada. Ficou apenas o registro, na memória, da conexão entre Michael Jackson e uma paixão. Como, então, ser tão frio à morte de um ícone tão importante na minha vida?
Acho que eu realmente precisava escrever alguma coisa sobre o “rei do pop”. Agora, começo a sentir sua perda. É mesmo uma pena. Eu sempre digo que nos falta valorizar a história e o passado. Por isso, eu seria ridículo e até cruel se não reconhecesse o que representou Michael Jackson para a mídia, para a cultura pop, para a música… e para mim.
P.S. Tiago Dória fez um bom post sobre o TMZ, um site de fofocas sobre celebridades que foi o primeiro veículo a noticiar a morte de Michael Jackson. O feito foi destaque na internet, principalmente em sites sobre jornalismo na web. Então, lanço uma questão, sem respostas: o furo jornalístico, que assassinei outro dia, ainda tem seu valor? O Online Journalism Review escreve as lições deixadas na cobertura web da morte de MJ.