Informação é estar atento | Blog de Raphael Perret
Ficar de butuca: estar esperto, observar, prestar atenção. Butuca Ligada é atenção redobrada, ler as entrelinhas, examinar o superficial e o profundo. Saiba mais
Blog de Raphael Perret, jornalista, carioca, rubro-negro, em constante aprendizado
Terminei há pouco tempo a leitura de três livros (uma proeza inédita, deve ser a era de Aquarius). Em comum entre eles, a característica de coletânea. Dois, de artigos; um, de contos. Pitacos:
Canções do Rio – organizado pelo amigo Marcelo Moutinho, reúne artigos sobre a presença da cidade do Rio no cancioneiro brasileiro. O time escalado ganha mole qualquer Brasileirão de cronistas: João Máximo, Sério Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger, cada um abordando uma fase cronológica ou um (ou mais) estilo musical. Ler os textos é uma delícia, pois dá uma vontade enorme de ouvir todas as músicas citadas. E a absorção do livro continua após a leitura, uma vez que, na internet, é fácil achar as letras completas ou baixar as músicas e ouvi-las. O chato de Canções do Rio são algumas redundâncias e, principalmente, a concisão – compreensível – dos textos. Cada artigo começa tentando defender alguma tese, mas no fim se revela superficial, dando um gostinho de quero mais. Como um despertador de novos estudos sobre a Cidade Maravilhosa como musa dos letristas, o livro funciona muito bem.
Como se não houvesse amanhã – coletânea de contos inspirados em 20 canções da Legião Urbana, organizada por Henrique Rodrigues. Cada autor pôde escolher uma música e, no fim, todos os discos foram contemplados na obra. Em alguns casos, o contista usa a música como trilha sonora para uma história; em outros (maioria), a letra é recontada por meio de uma nova ação. Infelizmente, a diversidade incorreu não apenas na narrativa, mas na qualidade dos textos. Enquanto alguns se destacam pela criatividade e fuga do óbvio, como “Tempo perdido” (de Tatiana Salem Levy) e “Por enquanto” (de Renata Belmonte), outros pecam pela ingenuidade ou por serem meros exercícios de demonstração de riqueza vocabular. Em comum, entre todos, um cheiro de perda, dor e tristeza. Astros predominantes no universo de Renato Russo.
Passe de letra – compilação de crônicas escritas por Flávio Carneiro, professor de Literatura da Uerj, para coluna que ele manteve entre 2007 e 2008 no jornal literário Rascunho, de Curitiba. Mistura observações sobre o esporte bretão em muitos de seus aspectos com a experiência do autor como jogador de futebol, antes de optar pelo vestibular para a faculdade de Letras. O texto é sempre bem-humorado, repleto de situações cômicas, porém emocionante nos momentos mais sensíveis, como o texto em que o autor fala de sua escolha de Sofia entre o vestibular e a carreira esportiva. As narrativas, verdadeiros “causos” do futebol, são tão bem construídas que o leitor é capaz de questionar onde há verdade e onde há ficção – mas isso acaba sendo irrelevante. Pode agradar a quem curte o futebol mas não tem intimidade com a leitura, assim como pode ser prazeroso aos fãs de livros e têm repulsa pelo esporte mais popular do Brasil. Para quem gosta de futebol e literatura, é um deleite.
Detalhesé a visão masculina da vítima do famoso mal que acomete 99% das relações amorosas: o pé-na-bunda. O homem, resignado, não se esforça em recuperar o amor perdido. Sua vingança é ter a certeza de que a mulher, dali em diante, continuará tendo lembranças dele, principalmente nos momentos mais íntimos que usufruir com um novo companheiro. No fim das contas, o abandonado admite que, com o tempo, essa memória vai se esvair. Mas nunca se acabar.
Qual homem nunca celebrou uma empáfia dessas pra tentar disfarçar sua fragilidade emocional?
Não é qualquer um que tem a capacidade de produzir uma letra como a de Detalhes. Ter esta façanha no currículo é um forte argumento para quem defende a alcunha de “Rei” para Roberto Carlos.
Não senti a mesma tristeza e arraso em que muitos mergulharam com a morte de Michael Jackson. Se fosse há quinze anos, quando ele ainda gravava discos e lançava canções com alguma qualidade, tenho certeza de que eu seria atingido. Mas por que isso não acontece hoje? Ao lançar essa questão no Twitter, o @Evidente deu a resposta certeira e um tanto quanto, se me permitem o clichê… evidente: MJ morreu faz tempo.
O ocaso de Michael Jackson não foi uma exceção da linha do tempo típica das megacelebridades. Raramente um ídolo morre no auge de sua carreira. A diferença, em prejuízo de MJ, foram a quantidade de escândalos e bizarrices em que se meteu e o enigma que foi sua vida nos últimos anos.
Tanto poder, dinheiro, fama e sucesso desandam a cabeça de qualquer um. A degringolada é acentuada pelo trabalho precoce, iniciado desde os cinco anos. Não se constrói um parque de diversões em casa para receber crianças à toa, assim como não se é cabotino sem influências do passado. Se MJ se submetia a tratamento psicológico ou se este era ineficiente é apenas mais um mistério que circunda a biografia do astro.
As maluquices do cantor não se comparavam às excentricidades marqueteiras de muitos ídolos pop. Tudo ganhava um contorno de mistério. Afinal, ele se tornou branco porque quis ou porque sofria de doenças? Como ele se metamorfoseou tanto? Dormia mesmo com as crianças que o visitava? Era pedófilo? A falta de explicações convincentes só ajudou o público a aumentar as desconfianças, diminuir o encantamento e aflorar o sentimento da compaixão.
Mas eu seria leviano se dissesse que a morte de Michael Jackson é um fato indigno de destaque. Esquisitice alguma é capaz de reduzir a importância do cantor para a história da música. Ou para a minha história.
Lembro, mesmo com três anos de idade, quando o extenso videoclipe de Thriller passou no Fantástico: morria de medo da possibilidade de um lobisomem ou um zumbi aparecer no meu quarto à noite. Uma das minhas canções prediletas da época era Don’t stop ’til you get enough, a eterna música do Video Show. Mas a lembrança mais contundente foi o uso que fiz do astro para me aproximar de uma paixão da juventude. Para tentar sempre diálogo com ela, fã de MJ, comprei os quatro principais discos adultos e acompanhava tudo que era divulgado sobre o artista. Uma tentativa de resolver os tradicionais dilemas da timidez diante de amores púberes . Bem, não adiantou de nada. Ficou apenas o registro, na memória, da conexão entre Michael Jackson e uma paixão. Como, então, ser tão frio à morte de um ícone tão importante na minha vida?
Acho que eu realmente precisava escrever alguma coisa sobre o “rei do pop”. Agora, começo a sentir sua perda. É mesmo uma pena. Eu sempre digo que nos falta valorizar a história e o passado. Por isso, eu seria ridículo e até cruel se não reconhecesse o que representou Michael Jackson para a mídia, para a cultura pop, para a música… e para mim.
Eu e Adriana mandamos uma carta à simpática casa de shows de samba, com algumas reclamações sobre a cozinha e o atendimento. O tom cuidadoso do texto não impediu que o CCC ignorasse a nossa mensagem. Portanto, resolvemos torná-la pública. (ATUALIZAÇÃO: resposta chegou em 12/06, confira)
Tem gente chiando sobre a escolha dos Los Hermanos para a abertura dos shows de Kraftwerk e Radiohead, neste fim de semana, no Rio e em São Paulo, e prometendo vaia. Que besteira. Se o público soubesse ou se lembrasse de outros shows de abertura já realizados no Brasil, pararia de reclamar.