Com o perdão do termo, hoje foi foda.
Cheguei na estação Carioca do metrô mais ou menos às 18:10 e metade das roletas estavam interditadas. Obviamente, filas gigantescas se formavam nas catracas restantes. Era uma medida dos operadores para evitar que a plataforma ficasse lotada. O alto-falante, numa potência de noite metaleira do Rock in Rio, informava que uma composição avariada na estação Flamengo causava irregularidade nos intervalos. De fato, meu trem, sentido zona sul, demorou bem mais que o normal, assim como estava mais cheio do que de costume.
Ao passar pela estação do Catete, notei que as plataformas no sentido contrário (zona norte) estavam abarrotadas, chegando ao ápice da lotação no Largo do Machado, parada seguinte. O mais bizarro foi ouvir uma gritaria e perceber que ela vinha de um trem que saía lentamente da estação, no sentido zona norte, todo escuro e com gente dentro (?!?!). Pra completar o surrealismo do momento, o alto-falante do meu trem ecoava um homem gritando, em certo tom de desespero, “SIGILO! SIGILO!”.
Em Botafogo, meu destino, a situação da Carioca se repetia e filas enormes se formavam diante das catracas. Algo perto do caos.
Registrei mais ou menos no Twitter tudo que aconteceu – com algum delay, pois é Claro (com trocadilhos, por favor) que não consegui acessar o programinha dentro do metrô.
Minha página do Twitter, em tela capturada às 21:10 de 21/12/2009 (clique para ver em tamanho normal)
Já recebi comentários dizendo que não houve problema algum na estação Flamengo. Alguns também lembraram que hoje houve a inauguração da estação General Osório e da conexão Pavuna-Botafogo, com a presença do presidente Lula (aliás, é o fim da picada que o presidente da República venha inaugurar UMA estação de metrô numa cidade como o Rio de Janeiro). Enfim, não tenho a menor ideia do que está acontecendo pra um sistema de transporte que era bonzinho ter se tornado decadente tão depressa.
Já tratei deste problema há quase um mês, quando foi proposto um boicote ao metrô. As razões da queda da qualidade permanecem obscuras. O Metrô, ao menos, assume que opera “no limite”. Mas vou lançar uma hipótese aqui. A descrição dela vai ser simples; sua existência, porém, é complexa.
Se o metrô diz que opera no limite, então houve um aumento do número de passageiros de uns tempos pra cá. Seria um reflexo de uma suposta superpopulação carioca? Não creio. Lembram-se quando questionei a inflação descabida dos preços dos imóveis na zona sul? No bom debate que lá rolou, uma das possíveis conclusões foi a demanda maior por casas e apartamentos em bairros próximos ao metrô. Esta procura seria motivada pela vontade do cidadão em passar longe do trânsito cada vez mais caótico do Rio de Janeiro. Com ar condicionado, intervalos pequenos entre um trem e outro e imunidade a engarrafamentos, o metrô parecia ser uma ótima alternativa à convivência com motoristas (tanto de automóveis quanto de ônibus) loucos e mal-educados.
Mas os investimentos do metrô não acompanharam o crescimento da demanda e, agora, estamos perto da saturação. É preciso, sim, que a companhia aplique mais recursos no sistema. Mas é preciso também repensar todo o sistema de tráfego da cidade do Rio de Janeiro. Não dá mais para conviver com automóveis que fecham cruzamentos e desrespeitam sinais, nem com ônibus que vivem lotados e conduzidos por motoristas sádicos. A saturação, na verdade, não é do metrô. É de todo o transporte na cidade.
Os agentes envolvidos são muitos: governo, empresas de transportes e toda a heterogênea população do Rio de Janeiro. Reacomodar esse intrincado e desequilibrado fluxo de forças não é nada fácil. A solução passa por um conjunto de medidas, como rigor na punição a motoristas que burlam as leis de trânsito, maior fiscalização e regulação das concessões de ônibus, trens, barcas e metrô e estímulo a meios alternativos, como as bicicletas. Se reduzirmos o estresse das enervantes viagens via transporte público ou particular, a demanda pelo serviço poderá ser mais equilibrada, e as pessoas poderão escolher entre ônibus, metrô ou trem pelo que for mais confortável, e não pelo menos pior.
Estamos à beira da Copa, das Olimpíadas e, ao mesmo tempo, do colapso do trânsito carioca. Se nada for feito, aposto dois tostões que, em poucos anos, este se tornará o maior problema do Rio de Janeiro, superando a segurança e equiparando-se à saúde.
P.S. Espero que compreendam a diferença do tom entre o que foi publicado no Twitter, durante os problemas, e o que está escrito aqui no blog, horas depois, de banho tomado e cuca fresca. Não pretendo iniciar um novo boicote ao metrô, prefiro dar uma chance às novidades que entrarão em vigor amanhã. Mas não retiro o que disse.